Exploramos o infinito antes de dominar o abismo local
- Thiago Mourão

- há 2 dias
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O ser humano não conseguiu sequer conhecer completamente as profundezas do próprio planeta — e ainda assim insiste em medir o infinito.

Essa constatação, que à primeira vista parece uma ironia quase infantil, é na verdade um espelho desconfortável da nossa condição. Vivemos numa era em que celebramos imagens captadas a bilhões de anos-luz de distância, mas não sabemos descrever com precisão o que existe a onze quilômetros abaixo da superfície do oceano. Conseguimos enviar sondas para além da órbita de Plutão, mas não conseguimos mapear integralmente o leito marinho da Terra. E isso não é apenas uma questão científica. É um sintoma civilizacional.
O oceano cobre mais de 70% da superfície do planeta. É o grande regulador climático, o berço da vida, o responsável direto pela respiração de cada um de nós. Ainda assim, estima-se que apenas uma pequena fração do fundo oceânico tenha sido explorada com detalhamento. Lugares como a Fossa das Marianas permanecem mais misteriosos que a superfície de Marte. E essa comparação não é retórica. É literal.
Enquanto isso, telescópios como o James Webb Space Telescope capturam imagens de galáxias formadas pouco após o nascimento do universo. Observamos luz que viajou por bilhões de anos até chegar aos nossos sensores. Olhamos para trás no tempo. Deciframos espectros de exoplanetas. Mapeamos radiações cósmicas residuais do Big Bang.
Mas não sabemos, com a mesma profundidade, o que se move na escuridão abissal sob nossos mares.
A pergunta que surge é inevitável: por quê?
Não se trata de incapacidade técnica pura e simples. Explorar o oceano profundo é extremamente caro, perigoso e logisticamente complexo. A pressão nas grandes profundezas pode ultrapassar mil vezes a pressão atmosférica ao nível do mar. Equipamentos precisam resistir a ambientes corrosivos, temperaturas extremas e ausência total de luz. A comunicação é limitada. A navegação é imprecisa.
Mas explorar o espaço também é caro, perigoso e complexo. Enviar um telescópio para um ponto de equilíbrio gravitacional a 1,5 milhão de quilômetros da Terra não é exatamente trivial. Manter sondas operando no vácuo, enfrentando radiação cósmica, com temperaturas variando centenas de graus, também exige engenharia extrema.
Então por que insistimos tanto em olhar para cima, enquanto ignoramos o que está abaixo?
A resposta talvez não seja técnica. Talvez seja psicológica. Talvez seja simbólica.
Desde as primeiras civilizações, o céu representou transcendência. As estrelas foram associadas a deuses, destino, eternidade. O firmamento era o palco das narrativas cósmicas. Já o fundo do mar sempre foi associado ao desconhecido sombrio, ao caos, aos monstros, ao medo primordial.
Olhar para o céu é um gesto ancestral de esperança. Olhar para o abismo é confrontar a escuridão.
E nós, como espécie, sempre fomos mais seduzidos pela promessa de transcendência do que pela obrigação de autoconhecimento.
Existe algo quase poético no fato de que investimos bilhões para procurar vida em Marte enquanto destruímos ecossistemas marinhos na Terra. Buscamos sinais biológicos em exoplanetas enquanto despejamos plástico em nossos próprios oceanos. Sonhamos com colônias interplanetárias enquanto não conseguimos preservar recifes de coral.
Não se trata de opor ciência espacial à oceanografia. Ambas são essenciais. Ambas ampliam o conhecimento humano. A questão é o desequilíbrio simbólico e político. O que celebramos? O que financiamos com entusiasmo? O que vira manchete?
Quando uma nova imagem cósmica é divulgada, ela viraliza. Quando um relatório aponta o colapso de um ecossistema marinho, ele mal atravessa a bolha acadêmica.
Há algo profundamente revelador nisso.
Explorar o universo nos dá a sensação de grandeza. Explorar o oceano nos confronta com nossa responsabilidade. O cosmos não exige prestação de contas moral. O mar exige. Ele responde às nossas ações com tempestades mais intensas, com elevação do nível, com perda de biodiversidade.
O universo é distante. O oceano é íntimo.
E talvez seja exatamente essa intimidade que nos incomoda.
A verdade é que a humanidade sempre foi movida por narrativas épicas. A corrida espacial foi uma epopeia moderna. Foguetes rasgando a atmosfera. Astronautas flutuando em microgravidade. Bandeiras fincadas em solos extraterrestres. Era a materialização de um sonho coletivo.
Explorar o fundo do mar, por outro lado, não tem o mesmo glamour. Não há pôr do sol marciano. Não há foto icônica de um astronauta diante do horizonte lunar. Há escuridão, lama, criaturas translúcidas e pressões esmagadoras.
Mas talvez estejamos subestimando a potência simbólica do abismo.
As profundezas oceânicas são o último grande território inexplorado do nosso próprio planeta. Ali existem formas de vida que desafiam a biologia convencional. Organismos que sobrevivem sem luz solar, alimentando-se de reações químicas próximas a fontes hidrotermais. Ecossistemas independentes da fotossíntese. Vida que prospera onde, até poucas décadas atrás, acreditávamos ser impossível.
Se existe um lugar que redefine nossa compreensão sobre os limites da vida, é o oceano profundo.
E isso deveria nos fascinar tanto quanto qualquer exoplaneta.
Mas a provocação central não é científica. É filosófica.
O fato de não conhecermos completamente as profundezas do oceano enquanto tentamos compreender a profundidade do universo expõe uma tensão fundamental da condição humana: queremos entender o todo antes de entender o próximo.
É como alguém que deseja explicar a natureza da consciência sem compreender os próprios traumas. Como uma sociedade que discute colonização interplanetária sem resolver desigualdades básicas. Como um indivíduo que busca respostas metafísicas enquanto ignora conflitos internos.
O oceano é o nosso inconsciente coletivo.
Escuro. Profundo. Repleto de forças invisíveis que moldam a superfície.
O universo, por sua vez, é o nosso imaginário expansivo.
Brilhante. Infinito. Repleto de possibilidades que alimentam sonhos.
Talvez precisemos de ambos. Mas talvez precisemos, primeiro, encarar o que está abaixo antes de projetar tanto o que está além.
Há também uma dimensão política nessa discussão. O financiamento científico não é neutro. Ele reflete prioridades culturais. A exploração espacial é frequentemente associada a prestígio nacional, poder tecnológico, influência geopolítica. O espaço é palco de competição simbólica entre nações.
O oceano, embora estratégico, raramente ocupa o centro do imaginário popular com a mesma intensidade. Não há corrida do abismo com transmissão global. Não há cerimônias televisionadas celebrando cada novo metro mapeado do fundo oceânico.
E isso molda a percepção pública.
Quando investimos mais energia narrativa no cosmos do que no planeta, comunicamos implicitamente que o futuro está “lá fora”. Que a salvação pode estar além da atmosfera. Que o progresso verdadeiro é escapar.
Mas escapar para onde?
Mesmo que colonizássemos Marte, continuaríamos sendo humanos. Levaríamos conosco nossos conflitos, nossas limitações, nossas desigualdades. A tecnologia não substitui maturidade civilizatória.
E aqui está o ponto mais incômodo: talvez a exploração espacial seja, em parte, uma metáfora da nossa dificuldade em lidar com os próprios limites.
É mais confortável imaginar novos mundos do que consertar o nosso.
É mais sedutor falar de viagens interestelares do que enfrentar a crise climática.
É mais emocionante divulgar imagens de galáxias distantes do que reconhecer que desconhecemos profundamente o sistema que regula nosso clima e sustenta nossa alimentação.
Mas não se trata de escolher entre céu e mar. Trata-se de equilíbrio. De coerência.
A ciência é uma das maiores conquistas humanas. Ela nos tirou da superstição e nos colocou diante da evidência. Nos ensinou a medir, testar, revisar, corrigir. Nos deu vacinas, energia elétrica, satélites, comunicação global. Não há dúvida de que explorar o universo amplia nossa compreensão da física, da química, da origem da matéria.
Entender o cosmos é entender de onde viemos.
Mas entender o oceano é entender como continuaremos aqui.
O mar regula correntes que distribuem calor pelo planeta. Absorve grande parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. Produz oxigênio por meio do fitoplâncton. Alimenta bilhões de pessoas. É rota de comércio global.
Ignorar sua complexidade é ignorar a base da nossa sobrevivência.
Existe algo quase trágico em celebrar o brilho das estrelas enquanto as águas sobem silenciosamente nas cidades costeiras.
E ainda assim, não podemos negar que olhar para o céu também é profundamente humano. O fascínio pelo universo é uma expressão legítima da nossa curiosidade. É o desejo de compreender a totalidade. De saber se estamos sozinhos. De descobrir as leis fundamentais que governam tudo.
Talvez o problema não seja olhar para o infinito. Talvez seja esquecer o abismo.
A maturidade científica e civilizatória exige simultaneidade: compreender o cosmos e cuidar do planeta. Investigar galáxias distantes e preservar ecossistemas locais. Desenvolver telescópios avançados e fortalecer pesquisas oceanográficas.
A provocação inicial — “não conhecemos as profundezas do oceano e já queremos entender o universo” — não é um argumento contra a exploração espacial. É um convite à reflexão sobre prioridades, simbolismos e responsabilidades.
É um lembrete de que o desconhecido não começa a bilhões de anos-luz. Ele começa a poucos quilômetros de profundidade.
Talvez o verdadeiro desafio não seja técnico, mas ético. Não seja alcançar mais longe, mas aprofundar mais perto.
Porque, no fim das contas, tanto o oceano quanto o universo são espelhos da nossa limitação. Quanto mais avançamos, mais percebemos o quanto ignoramos.
E talvez essa seja a parte mais honesta da história: não se trata de dominar o mistério. Trata-se de aprender a conviver com ele sem negligenciar aquilo que nos sustenta.
A humanidade é, ao mesmo tempo, grandiosa e frágil. Capaz de enviar instrumentos para sondar a luz primordial do universo e incapaz de impedir a acidificação dos próprios mares. Capaz de calcular órbitas com precisão milimétrica e incapaz de distribuir recursos de forma justa.
Somos a espécie que toca o infinito com uma mão e polui o próprio quintal com a outra.
Talvez a verdadeira profundidade que precisamos compreender não esteja nem no oceano nem no universo — mas na consciência.
Porque enquanto buscarmos respostas apenas fora, ignorando o que está dentro e abaixo, continuaremos repetindo o mesmo padrão: expansão sem introspecção, avanço sem equilíbrio, conquista sem responsabilidade.
Explorar o cosmos é extraordinário. Mas compreender e preservar o planeta que nos gerou é urgente.
O céu pode esperar alguns bilhões de anos. O oceano não.
E talvez seja hora de inverter a pergunta: não é por que buscamos entender o universo sem conhecer completamente o oceano.
A pergunta real é: que tipo de humanidade queremos ser enquanto fazemos isso?
Uma que usa o conhecimento como ferramenta de fuga?
Ou uma que transforma conhecimento em maturidade?
O abismo está aqui. O infinito também.
A escolha sobre qual profundidade priorizar — e como equilibrar ambas — define não apenas o rumo da ciência, mas o caráter da civilização que estamos construindo.




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