2026: quando a tecnologia não será o problema — nós seremos
- Thiago Mourão

- 20 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Não será a inteligência artificial que vai nos tirar o emprego. Nem os robôs, nem os algoritmos, nem as máquinas que aprendem sozinhas. Em 2026, o maior risco não estará na tecnologia em si, mas na forma como escolhemos nos comportar diante dela. O perigo real não é a IA pensar demais — é o ser humano pensar de menos, delegar demais, aceitar demais.

Vivemos a ilusão de que estamos no controle porque apertamos botões, escolhemos comandos e damos ordens às máquinas. Mas, pouco a pouco, fomos terceirizando aquilo que nos definia: o raciocínio crítico, a tomada de decisão, o tempo de reflexão, o direito ao erro. A inteligência artificial entrou no cotidiano prometendo eficiência e produtividade. Entregou isso. O custo? Um cotidiano mais acelerado, mais vigiado e emocionalmente mais frágil.
O discurso dominante diz que precisamos “nos adaptar”. Adaptar ao novo mercado, às novas ferramentas, às novas linguagens, às novas métricas. Mas quase ninguém pergunta até que ponto adaptar-se o tempo todo não é, na verdade, uma forma sofisticada de submissão. Em 2026, a adaptação constante deixará de ser virtude e passará a ser sintoma. Sintoma de um mundo que muda mais rápido do que a nossa capacidade de compreender o que está acontecendo.
Nunca se exigiu tanto do indivíduo. Nunca se ofereceu tão pouco em troca. Espera-se que ele seja multitarefa, resiliente, emocionalmente inteligente, tecnicamente atualizado, criativo sob pressão e disponível o tempo todo — mas sem adoecer, sem reclamar e, de preferência, sorrindo. O mercado chama isso de evolução. O corpo chama de exaustão.
A inteligência artificial, que deveria libertar o ser humano de tarefas repetitivas, tem sido usada para intensificar o controle, acelerar prazos e elevar metas a níveis irreais. O trabalhador de 2026 não competirá apenas com outros humanos, mas com sistemas que não dormem, não adoecem e não sentem medo. E a comparação é injusta desde a largada. Não porque a máquina seja melhor, mas porque o humano passou a ser tratado como se fosse uma.
Nesse contexto, a saúde mental não é mais um “tema sensível”. É uma questão estrutural. Falar de ansiedade, burnout e depressão como problemas individuais é uma forma conveniente de absolver um sistema adoecido. Não se trata de fragilidade pessoal, mas de um ambiente que normalizou o excesso, glorificou a urgência e demonizou a pausa. Em um mundo volátil, a instabilidade virou regra, e o cérebro humano não foi projetado para viver permanentemente em alerta.
Há um paradoxo cruel em curso. Nunca tivemos tanto acesso à informação, e nunca estivemos tão confusos. Nunca tivemos tantas ferramentas para otimizar o tempo, e nunca sentimos tanto a sensação de que ele escorre pelos dedos. A tecnologia prometeu liberdade, mas entregou dependência. Prometeu conexão, mas ampliou o isolamento. Prometeu autonomia, mas reforçou a vigilância.
Em 2026, o desafio comportamental mais urgente será reaprender a impor limites. Limites ao trabalho que invade a vida pessoal. Limites à lógica de produtividade infinita. Limites à ideia de que tudo pode — e deve — ser mensurado, avaliado, ranqueado. Nem tudo que importa é mensurável. Nem tudo que é eficiente é humano.
Será preciso coragem para desacelerar quando o mundo exige pressa. Coragem para dizer não quando o sistema recompensa a submissão. Coragem para pensar quando tudo empurra para reagir. A verdadeira revolução não será tecnológica, será comportamental. Não estará nos códigos, mas nas escolhas. Não estará nas máquinas, mas na capacidade humana de não se deixar moldar completamente por elas.
Se 2026 nos reserva algum aprendizado, é este: tecnologia sem ética vira opressão elegante; eficiência sem propósito vira vazio; adaptação sem consciência vira alienação. O futuro não será decidido por quem domina a IA, mas por quem consegue continuar humano apesar dela. E isso, ao contrário do que vendem nos discursos motivacionais, será tudo — menos fácil.




Texto lúcido, nos faz refletir sobre a importância de dominar as ferramentas tecnológicas atuais em vez de ser dominado por elas. Sempre digo que a melhor das ferramentas é (e sempre foi) a sabedoria.