A juventude que já não vai mais engolir as mentiras do Brasil
- Thiago Mourão

- 20 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Há algo que une Nepal, Sri Lanka, Bulgária — e o Brasil — e não é geografia, religião ou sistema político. É o esgotamento silencioso do pacto social, especialmente entre os jovens. Quando a juventude começa a ocupar as ruas não por bandeiras ideológicas clássicas, mas por raiva econômica, cansaço moral e desconfiança institucional, o problema já não é conjuntural. É estrutural. E quem finge não ver costuma ser atropelado pela história.

No Nepal, a juventude cansou de uma monarquia que falava em tradição enquanto entregava estagnação. No Sri Lanka, jovens derrubaram um governo que quebrou o país em nome de decisões econômicas irresponsáveis e corrupção endêmica. Na Bulgária, o roteiro se repete com verniz europeu: protestos anticorrupção, rejeição à política econômica e a queda de um primeiro-ministro justamente quando o país se preparava para celebrar a entrada na zona do euro. O símbolo é devastador: não adianta trocar a moeda se o sistema continua caro demais para quem vive de salário.
Agora olhemos para o Brasil. Aqui, o discurso oficial insiste em normalidade institucional, em estabilidade democrática, em indicadores que “melhoram”. Mas nas ruas, nas redes e principalmente nas conversas privadas, o que se ouve da juventude é outra coisa: desencanto, ironia e vontade de ir embora. O jovem brasileiro não sonha mais em mudar o país; sonha em sobreviver a ele ou escapar dele. Isso é um sinal vermelho piscando — e não é pequeno.
Assim como na Bulgária, o Brasil vive uma contradição perigosa. Fala-se em responsabilidade fiscal, reformas, crescimento, enquanto o custo de vida aperta, o mercado de trabalho precariza e a corrupção segue como ruído permanente, normalizado, quase folclórico. A juventude percebe o abismo entre o discurso e a realidade com mais clareza do que os gabinetes imaginam. E juventude, quando percebe que foi enganada, não pede explicação — retira consentimento.
Há quem diga que o Brasil é diferente porque “as instituições estão funcionando”. Também diziam isso na Bulgária, também diziam isso no Sri Lanka, também diziam isso no Nepal. Instituições podem funcionar perfeitamente para manter um sistema que já não serve à maioria. O problema não é o funcionamento técnico; é a legitimidade moral. Quando ela acaba, a engrenagem continua girando sozinha até quebrar.
O elemento comum nesses países é a corrupção não como exceção, mas como paisagem. Não é o escândalo isolado que revolta; é a sensação de que ninguém paga o preço, de que tudo termina em pizza, acordo ou prescrição. No Brasil, essa percepção é ainda mais corrosiva porque atravessa governos, ideologias e décadas. O jovem brasileiro não vê heróis; vê ciclos. E ciclos cansam mais do que crises.
Outro ponto incômodo: a economia. No discurso, tudo é “transição”, “ajuste”, “sacrifício necessário”. Mas o sacrifício tem sempre o mesmo endereço. Assim como os jovens búlgaros questionaram para quem servia a entrada no euro, o jovem brasileiro se pergunta: crescimento para quem? estabilidade para quem? democracia para quem? Quando essas perguntas não encontram resposta concreta, o silêncio vira protesto — ou algo pior.
O Brasil ainda não vive uma explosão como Sri Lanka, nem uma ruptura como Nepal, nem uma queda de governo às vésperas de um marco simbólico como a Bulgária. Mas vive algo talvez mais perigoso: a anestesia social combinada com indignação acumulada. É o tipo de mistura que não avisa quando vai ferver.
A juventude brasileira observa o mundo. Ela viu jovens derrubarem reis, primeiros-ministros e clãs familiares. Ela sabe que regimes não caem apenas por armas, mas por perda de sentido. E começa a perceber que votar a cada quatro anos, sozinho, não resolve quando o sistema parece blindado contra qualquer mudança real.
Nepal, Sri Lanka e Bulgária não são alertas distantes. São espelhos. O Brasil pode fingir que não se reconhece neles, mas a imagem está ali: um país onde os jovens trabalham mais, ganham menos, confiam menos e esperam menos. E quando uma geração deixa de esperar, ela deixa de sustentar o edifício inteiro.
A pergunta que fica não é se o Brasil vai enfrentar protestos mais duros liderados por jovens. A pergunta é quando — e em que condições. Porque a história recente mostra que governos costumam cair não no auge da crise, mas no momento em que insistem em comemorar enquanto o povo já não vê motivo algum para aplaudir.




Comentários