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Aos 40, a vida não desce a serra — ela sobe o volume.

Aos 40 anos, acontece uma espécie de terremoto dentro das pessoas, mas a sociedade continua fingindo que nada mudou. A ideia de que a vida adulta tem uma data de validade emocional e sexual foi enfiada goela abaixo durante meio século, principalmente na geração Boomer, que cresceu sob o dogma de que maturidade e renúncia eram sinônimos. Eles foram ensinados a reduzir o próprio brilho, a aceitar a decadência como destino, a enxergar o desejo como um privilégio temporário que desaparece junto com o primeiro fio branco. Só que nós não somos essa geração. Nós fomos ensinados a continuar vivendo — e isso significa continuar desejando, sentindo, explorando, experimentando. Significa não aceitar a narrativa mofada de que o prazer expira quando o calendário cruza a metade da vida.



E é exatamente aí que surge o conflito. Os corpos de hoje não obedecem mais ao roteiro antiquado do envelhecimento. Alimentação melhor, exercício regular, medicina mais avançada, acesso à informação — tudo isso produziu uma geração que chega aos 40 com energia que os 30 dos nossos pais não tiveram. Só que, enquanto o corpo avança, o tabu continua estacionado no século passado, nos encarando com aquela mesma expressão de reprovação que sempre teve: uma mistura de moralismo, medo e ignorância. As pessoas têm vergonha de admitir que desejam, que transam, que têm fantasias, que vivem plenamente. Como se prazer fosse um brinquedo exclusivo da juventude e quem passa um certo marco estivesse, automaticamente, cometendo algum tipo de desvio ético por continuar vivo.


E aqui está a verdade que ninguém gosta de encarar: aos 40, o sexo não piora — ele finalmente se liberta. É quando o corpo e a mente começam a operar em parceria, não em competição. É quando a insegurança juvenil perde força, a necessidade de provar alguma coisa desaparece e a busca deixa de ser performance para se tornar presença. O que é melhor do que isso? Nada. Mas falar disso assusta, porque desmonta toda a fantasia cultural construída para manter adultos envergonhados de serem adultos. Existe um interesse, ainda que inconsciente, em infantilizar o envelhecimento. Um interesse em manter as pessoas acreditando que o auge está sempre atrás, nunca adiante. Quanto mais acreditamos nisso, mais frágeis ficamos. E uma sociedade de pessoas frágeis é muito mais fácil de controlar.


Essa é a discussão que ninguém quer abrir: o etarismo não é apenas estética, ele é político. Ele controla narrativas, comportamentos, expectativas. Ele diz quem pode viver plenamente e quem deve se recolher. Ele define quais corpos merecem voz, espaço, desejo, presença. Ele decreta em silêncio que, depois de um certo ponto, ninguém deve incomodar com vitalidade demais. E, por isso mesmo, é urgente rasgar essa lógica. Porque ela não apenas envelhece — ela aprisiona. Ela faz adultos desejosos se sentirem culpados, faz pessoas saudáveis se sentirem inadequadas, faz corpos vivos se sentirem impróprios. É uma mutilação simbólica.


Quando digo que a vida começa aos 40, não falo de autoajuda barata. Falo de biografia real. Falo de homens e mulheres que só nessa fase entendem, pela primeira vez, quem realmente são. Falo de decisões que só surgem quando as ilusões já caíram, quando o ego perdeu a arrogância, quando a experiência finalmente se impõe. É um renascimento — e não há nada mais profundamente humano do que isso. O problema é que ninguém preparou a sociedade para lidar com adultos renascidos. Preferem adultos resignados, silenciosos, discretos. Mas estamos cansados de ser discretos. Há uma força inegável que brota na vida adulta plena, e ela incomoda exatamente porque revela o que a cultura sempre tentou esconder: envelhecer não é definhar. É expandir.


E se expandir significa também desejar, sentir, tocar, ser tocado, reinventar o próprio corpo e a própria intimidade — então é exatamente isso que precisa ser dito em alto e bom som. O tabu não protege ninguém. Ele apenas mantém viva a mentira de que o prazer tem idade e que a vida tem prazo. Nada disso é verdade. O que existe é uma cultura que ainda não aprendeu a lidar com a potência dos 40, dos 50, dos 60. E talvez nunca aprenda, porque essa potência desafia tudo que foi ensinado antes: desafia o moralismo, desafia a estética, desafia a hierarquia, desafia o conformismo. Desafia o conforto de acreditar que estamos todos destinados ao apagamento.


Mas não estamos. E não vamos aceitar essa narrativa.

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