Geladeiras Cheias, Corpos Vazios
- Thiago Mourão

- 20 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Comer bem nunca foi um ato matemático, desses que se resolve com a soma de porções. Não é sobre “encher o prato”, é sobre encher o corpo de sentido. Só que essa verdade tão simples virou quase clandestina num mundo em que o alimento real foi substituído por produtos que apenas interpretam o papel de comida — e mal interpretam, diga-se de passagem.

A indústria alimentícia, esperta como sempre, percebeu cedo que o ser humano moderno não come mais pela necessidade, mas pela conveniência. Então, se a regra do jogo é essa, por que entregar alimento de verdade, limitado, perecível, temperamental, que depende do tempo, da terra, do clima e de uma cadeia inteira de trabalho? Muito mais prático criar uma fórmula química que pareça comida, cheire como comida e dure tempo suficiente para atravessar dois governos, uma crise econômica e um apocalipse zumbi sem mudar a cor.
Nasceu aí o “alimento” com prazo de validade maior que amizade de campanha política: resistente, brilhante, embalado, estabilizado, corrigido, tingido — uma engenharia de sabores que engana o cérebro com a mesma facilidade com que tenta enganar o corpo. Só que o corpo não é idiota. Ele sabe quando está sendo enganado. E cobra.
O problema é que o ser humano do século XXI aceitou essa decadência com uma naturalidade assustadora. A preguiça venceu. O ancestral que plantava, colhia, sentia o cheiro da terra molhada e sabia a época exata de cada fruto foi substituído por um sujeito que acredita piamente que “comer saudável” é comprar um pacote com foto de verduras na frente e 47 ingredientes no verso.
A humanidade, antes conectada à natureza pelo estômago, hoje está conectada à indústria pelo código de barras.
E é curioso: queríamos mais praticidade e ganhamos menos vitalidade. Queríamos rapidez e ganhamos fadiga. Queríamos não precisar cozinhar e ganhamos um repertório de doenças que nossos avós nem sabiam pronunciar.
Mas a culpa não é só da indústria — ela apenas faz o que sempre fez: entregar o que vende. O cúmplice real, silencioso, está do outro lado do balcão: o consumidor moderno, que prefere estocar comida como se fosse sobreviver a uma nevasca siberiana, enquanto vive num país tropical com feira fresca todo dia. A geladeira virou um museu de produtos congelados, empilhados em camadas de ansiedade culinária.
“Ah, mas ninguém tem tempo pra ir atrás de alimento fresco todos os dias.”Claro, tempo ninguém tem. Mas tem tempo pra rolar feed por horas, debater política no grupo da família, ficar preso no trânsito porque quis todo mundo sair ao mesmo tempo pra comprar a mesma coisa no mesmo lugar. Tempo existe — só não é usado para viver, mas para remediar o viver.
O que falta não é tempo: é a coragem de escolher a própria saúde antes da própria comodidade.
E aí vem a grande ironia: quanto mais nos afastamos da terra, mais nos aproximamos do adoecimento. A comida ultraprocessada é o retrato perfeito da modernidade: prática, atraente, viciante e absolutamente vazia. Um simulacro. Uma fantasia comestível.
O ser humano parou de plantar e perdeu mais do que uma habilidade — perdeu a noção do que é natural, do que é sazonal, do que é essencial. Esqueceu o gosto de fruta amadurecida no pé, porque agora tudo tem o mesmo gosto, em qualquer época, desde que passe pelo mesmo banho químico padronizado.
Vivemos num mundo em que a comida dura mais do que a saúde de quem a consome. E, ainda assim, fingimos surpresa quando o corpo reclama. A verdade é simples, dura e incômoda: comer mal não é acidente, é escolha — repetida, insistida e justificada pela conveniência.
E enquanto tratarmos o ato de comer como um processo industrial, e não como um ritual humano, continuaremos servindo não ao nosso bem-estar, mas ao conforto preguiçoso que nos mantém vivos por fora e esgotados por dentro.
A natureza funciona num ritmo que o homem moderno desaprendeu. A terra ensina — mas quem desaprende a ouvir, aprende a adoecer.
No final das contas, sobra uma pergunta, dessas que ninguém gosta de encarar porque exige assumir responsabilidade:Você quer comer bem — ou só quer comer fácil?
Porque a diferença entre as duas escolhas cabe inteirinha no rótulo que ninguém lê.




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