O caso do Cão Orelha: violência juvenil e a urgência de prevenção
- Bruna Ferrari

- há 2 dias
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A morte do cão comunitário conhecido como “Orelha”, ocorrido em Florianópolis - na Praia Brava, após agressões cometidas por adolescentes, não é apenas uma tragédia que comove. É um sintoma. Um sintoma social, psicológico e institucional que precisa ser analisado com maturidade e responsabilidade.
O caso, amplamente divulgado pela mídia, gerou revolta, protestos e pedidos por punições exemplares. A indignação é legítima. Mas ela, sozinha, não resolve o problema.
Se reagirmos apenas com ódio, linchamento virtual ou simplificações — “são monstros”, “não têm recuperação”, “cadeia resolve” — estaremos perdendo a oportunidade de enfrentar a raiz da questão. E a raiz é mais profunda do que gostaríamos de admitir.
Como psicóloga infantil, afirmo: quando adolescentes praticam crueldade extrema contra um animal, não estamos diante de um evento isolado. Estamos diante de um sinal de alerta.
A violência não surge do vazio. Nenhum comportamento violento aparece desconectado de contexto: ele é construído. Pode ser modelado dentro de casa, aprendido no grupo de pares, reforçado pela cultura digital ou alimentado por negligência emocional.
A adolescência é um período marcado por intensa reorganização cerebral. O córtex pré-frontal — responsável por controle de impulsos, planejamento e avaliação de consequências — ainda está em amadurecimento. Ao mesmo tempo, o sistema límbico, ligado às emoções e à busca por recompensa, está altamente ativo. Isso significa que decisões podem ser mais impulsivas, especialmente em contextos de grupo.
Mas neurodesenvolvimento não explica tudo. O que realmente precisa ser questionado é: que tipo de valores estamos ensinando e quais limites estamos estabelecendo?
A violência começa a ser normalizada quando pequenas agressões são tratadas como “brincadeira”, quando o sofrimento alheio vira entretenimento, e a dor de um ser vulnerável é minimizada. A banalização é o primeiro passo da brutalidade.
É ilusório acreditar que um adolescente acorda um dia e decide, espontaneamente, torturar um animal até a morte. Comportamentos extremos costumam ser precedidos por sinais: crueldade progressiva; ausência de remorso; prazer em intimidar, e desvalorização da dor do outro.
Esses sinais nem sempre são escancarados. Às vezes aparecem como risadas diante de vídeos violentos, como comentários desumanizantes, como relatos de pequenos maus-tratos ignorados. E quando não há intervenção, o limite moral se desloca. O que antes chocava passa a parecer aceitável, a empatia enfraquece e o outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto.
E aqui surge uma pergunta incômoda: estamos atentos a esses sinais?
Existe um corpo consistente de pesquisas internacionais conhecido como Teoria do Elo, que aponta para a conexão entre crueldade contra animais e violência interpessoal futura. Isso não significa que todo adolescente que agride um animal se tornará um criminoso violento, e sim que esse comportamento é um marcador relevante de risco. Ignorá-lo é negligência.
Estudos mostram que crianças e adolescentes expostos à violência doméstica têm maior probabilidade de reproduzir agressões contra animais. Em lares onde há abuso conjugal, é comum que animais também sejam vítimas. A violência raramente escolhe um único alvo.
A crueldade pode funcionar como ensaio comportamental e dessensibilização progressiva ao sofrimento. Quanto mais se pratica ou se presencia violência sem consequência, menor o impacto emocional que ela provoca.
Isso nos leva a outra pergunta: estamos tratando a violência contra animais como questão menor ou como indicador sério de risco social?
A empatia é construída nas primeiras relações, no modo como a criança é cuidada, limitada e orientada. Ela se ensina — mas também se enfraquece. Empatia não é apenas uma característica inata, ela se desenvolve.
Uma criança que cresce em ambiente onde o sofrimento é reconhecido e validado aprende a reconhecer sofrimento no outro. Uma criança que cresce em ambiente onde dor é ridicularizada ou ignorada pode ter mais dificuldade em desenvolver essa habilidade.
Isso não significa procurar culpados simplistas nas famílias. Significa reconhecer que desenvolvimento emocional depende de múltiplos fatores:
• Vínculos afetivos seguros.
• Supervisão consistente.
• Limites claros.
• Modelos éticos coerentes.
• Ambiente escolar estruturado.
• Rede de apoio comunitário.
Quando esses elementos falham, a probabilidade de comportamentos de risco aumenta. Mas há algo essencial a lembrar: a adolescência é fase de plasticidade. Intervenções adequadas podem modificar trajetórias. Rotulações definitivas, por outro lado, tendem a cristalizar estigmas.
Diante de casos como o de Orelha, é comum ouvir diagnósticos populares: “psicopatas”, “irrecuperáveis”, “monstros”. Essa narrativa pode aliviar momentaneamente a angústia coletiva, mas é tecnicamente equivocada e socialmente perigosa.
Transtornos de personalidade não são diagnosticados de forma precipitada, especialmente na adolescência. Muitos comportamentos agressivos nessa fase são influenciados por contexto, impulsividade e dinâmicas grupais.
Quando rotulamos de forma definitiva, criamos barreiras para qualquer possibilidade de reabilitação e transformamos jovens em identidades fixas de violência. Isso não significa relativizar o ato, significa compreender que responsabilização e possibilidade de transformação não são opostas — são complementares.
Há uma tendência social de acreditar que punição severa resolve. A história mostra que não é tão simples. Medidas exclusivamente punitivas, sem acompanhamento psicossocial, apresentam eficácia limitada na prevenção de reincidência. Especialmente na adolescência, a intervenção precisa incluir:
• Avaliação psicológica rigorosa.
• Trabalho com regulação emocional.
• Desenvolvimento de empatia.
• Envolvimento familiar.
• Monitoramento contínuo.
Responsabilizar é necessário. Mas responsabilizar não é abandonar, é intervir de forma estruturada para reduzir risco futuro. Se a sociedade quer segurança, precisa investir em prevenção — não apenas em reação. A prevenção da violência começa muito antes de qualquer ato extremo.
Escolas precisam assumir protagonismo na educação socioemocional, não basta ensinar conteúdo acadêmico. É preciso ensinar convivência, ética, resolução de conflitos e respeito aos seres vivos. Programas estruturados de habilidades socioemocionais reduzem comportamentos agressivos. E isso é evidência, não minha opinião.
Famílias, por sua vez, precisam de suporte. A parentalidade contemporânea enfrenta desafios inéditos: exposição digital precoce, pressão social intensa, fragilidade de redes comunitárias. Supervisão ativa, diálogo constante e limites consistentes são fatores protetivos claros.
Quando sinais de crueldade aparecem, a resposta não pode ser minimização. Precisa ser intervenção imediata.
Não podemos ignorar também o papel das redes sociais na normalização da violência. A exposição constante a conteúdos chocantes pode reduzir impacto emocional. A busca por curtidas e validação pode estimular comportamentos extremos.
Quando a violência vira espetáculo, ela perde o caráter de transgressão moral e passa a funcionar como moeda social.
Precisamos discutir alfabetização digital, responsabilidade no compartilhamento de conteúdo e limites claros para adolescentes no ambiente online.
Crueldade contra animais é questão de saúde pública, mesmo que ainda exista resistência em tratar violência contra animais como tema prioritário. Mas ela deve ser compreendida como questão de saúde pública e segurança coletiva.
A Teoria do Elo demonstra que esses comportamentos não estão isolados. São indicadores de risco que podem preceder outras formas de agressão. Ignorar esses sinais é escolher a omissão.
O que precisamos fazer é transformar indignação em ação estruturada, em algo maior que revolta momentânea.
Precisamos de:
• Protocolos que reconheçam crueldade animal como marcador de risco.
• Integração entre justiça, saúde mental e educação.
• Capacitação de profissionais para identificação precoce.
• Programas públicos de educação socioemocional.
• Campanhas que reforcem cultura de empatia.
Sem estrutura, continuaremos reagindo a tragédias em vez de preveni-las. Afinal, que tipo de sociedade estamos formando?
Uma sociedade que reage com fúria episódica, mas não investe em prevenção? Ou uma sociedade que compreende que empatia é construída e que violência é aprendida — e, portanto, pode ser desaprendida?
A morte de Orelha é irreversível. Mas o futuro não é.
Se não tratarmos sinais precoces com seriedade, novos episódios surgirão — talvez contra animais, talvez contra pessoas. A escolha é coletiva.
Podemos continuar buscando culpados imediatos e soluções simplistas. Ou podemos enfrentar a complexidade, investir em desenvolvimento emocional e construir uma cultura que rejeite qualquer forma de violência contra seres vulneráveis.
A indignação é legítima, e a responsabilidade é permanente. Prevenção não é fraqueza — é inteligência social.




Eu só não gostei (por conta de como interpretei o parágrafo) da opinião sobre "a escola assumir protagonismo na educação socioemocional". Ser um suporte, até concordo. Mas o protagonismo deve ser sempre de pai e mãe. A doutora mesmo cita (e já vi que há um artigo específico sobre o tema), que há "exposição constante" e desenfreada dos pequenos à conteúdos inapropriados, sem supervisão, limites claros e o que eu chamo de 'sobre-orientação', ou seja, o ato de participar do consumo de conteúdo, pronto a discutir e argumentar para auxiliar na produção de um contexto particular da criança e do adolescente para esse ou aquele assunto. Hoje há extrema liberdade em utilizar o aparelho celular para "hipnotizar" a criança e…