O Colapso do Like: Quando reagir se torna risco!
- Thiago Mourão

- 30 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
As pessoas estão curtindo menos publicações nas redes sociais — e isso não é um detalhe estatístico, é um sintoma social. A curtida, que já foi símbolo de participação, hoje se dissolve em um mar de observações silenciosas. Há algo de revelador nesse gesto que não acontece. É como se estivéssemos olhando para tudo, mas nos recusando a deixar qualquer impressão digital. Um mundo inteiro assistindo, mas quase ninguém levantando a mão.

O usuário contemporâneo percorre o feed como quem atravessa uma cidade caótica: rápido, atento ao que importa, mas emocionalmente blindado. O ato de curtir, que já significou afeto, aprovação ou simples presença, perdeu espaço para a lógica da velocidade. Reels, shorts, vídeos de segundos — tudo é desenhado para ser visto e descartado. A interação virou luxo. O tempo virou moeda. E, diante disso, o gesto mais comum é o silêncio.
Mas não se engane: não é só cansaço. É também medo. Hoje, curtir algo é se posicionar — mesmo quando você não quer. Cada like é lido como um voto, uma bandeira, uma filiação invisível. Numa sociedade em que todos vigiam todos, o dedo hesita. A curtida se tornou um risco. E o silêncio, uma forma de autopreservação.
Ao mesmo tempo, os algoritmos criaram um espetáculo cruel: vemos o que não seguimos, e seguimos o que não vemos. A promessa de conexão virou uma engrenagem de retenção. O conteúdo não chega a quem deveria chegar, não importa o quanto se produza. A entrega é um privilégio que precisa ser conquistado, e não uma consequência natural da relação entre criador e público. Antes, quem curtia escolhia o que ver. Hoje, quem vê raramente escolhe o que curtir.
E há um detalhe incômodo nessa equação: todos estão exaustos. A overdose de opiniões, crises, tragédias e urgências transformou as redes num território emocionalmente tóxico. A reação mais comum é a fuga — não sair da plataforma, mas se proteger dentro dela. Passamos a existir no modo invisível: consumimos em silêncio, pensamos em silêncio, concordamos em silêncio. E não reagimos. Porque reagir exige energia. E energia, hoje, é recurso escasso.
A profissionalização do conteúdo também corroeu a espontaneidade. Tudo parece pensado, calculado, otimizado. O usuário percebe o roteiro por trás da postagem, o objetivo, a intenção. Cada foto tem estética; cada texto, estratégia; cada frase, função. O conteúdo deixou de ser encontro e virou ferramenta. Deixou de ser troca e virou performance. E o público, cansado de ser tratado como métrica, responde com indiferença silenciosa.
O mais paradoxal é que as redes nunca foram tão cheias — e tão vazias ao mesmo tempo. Cheias de conteúdo, vazias de vínculo. Cheias de opinião, vazias de escuta. Cheias de gente, vazias de presença. A ausência de curtidas é só o sintoma mais visível dessa desconexão: uma sociedade hiperconectada que, no fundo, está se relacionando cada vez menos.
A queda das curtidas não é o fim do engajamento. É o início de outro tipo de comportamento: privado, discreto, quase clandestino. As pessoas continuam lendo, assistindo, salvando, compartilhando — mas sem a exposição do gesto público. O engajamento migrou para lugares invisíveis, íntimos, inalcançáveis pela métrica tradicional.
O silêncio não significa falta de interesse. Significa cautela. Significa saturação. Significa distância. E, principalmente, significa que estamos tentando sobreviver a um ambiente onde tudo parece urgente, mas quase nada parece humano.
No fim, não estamos curtindo menos porque deixamos de nos importar. Estamos curtindo menos porque estamos nos protegendo. Porque estamos cansados. Porque estamos desconfiados. Porque as redes, que já foram praça pública, viraram vitrine, arena e mercado. E ninguém quer ser peça exposta o tempo todo.
A curtida perdeu valor porque o mundo digital perdeu intimidade. E talvez a pergunta não seja por que as pessoas estão curtindo menos — mas quem fomos nos tornando enquanto esse silêncio aumentava.




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