top of page

O Homem Contemporâneo: Forte De Espelho, Frágil De Ação

Há algo profundamente curioso — e francamente patético — no homem contemporâneo. Ele entra na academia seis vezes por semana, faz creatina como ritual religioso, ostenta bíceps inflados, barba cerrada e voz grossa ensaiada no reels. Parece pronto para a guerra. Até que surge… uma barata. Ou um pneu furado. Ou uma simples necessidade de leitura mínima de espaço urbano ao lado de uma mulher. E então o herói do espelho desaparece. Fica apenas o figurante do próprio personagem.



Vivemos a era do homem esteticamente viril e funcionalmente inútil. Uma masculinidade de vitrine, feita para foto, não para o mundo real. Um modelo que performa força, mas foge do gesto. Que fala grosso, mas não sustenta o silêncio quando precisa agir. Que exibe músculos como argumento moral, mas não sabe onde colocar o próprio corpo quando a situação exige presença.


A pergunta não é se isso é um retrocesso. A pergunta é: quando foi que aceitamos isso como normal?


Matar uma barata não é sobre o inseto. Trocar um pneu não é sobre mecânica. Andar do lado externo da calçada não é sobre cavalheirismo antiquado. Tudo isso é sobre algo muito mais básico e hoje raríssimo: prontidão. Disponibilidade para agir. Capacidade de assumir, ainda que em pequenas situações, a responsabilidade pelo ambiente imediato.


O homem contemporâneo foi educado para acreditar que qualquer gesto de proteção é suspeito. Que qualquer liderança é autoritarismo em potencial. Que qualquer código de conduta masculina é opressão disfarçada. E, com medo de errar, escolheu não fazer nada. O problema é que a omissão nunca foi neutra. Ela só é confortável para quem pode se dar ao luxo de ser omisso.


Criamos uma geração de homens que confunde respeito com ausência, igualdade com indiferença, maturidade com passividade. Homens que não querem parecer “machistas”, mas acabam parecendo ausentes. Homens que não querem assumir riscos, mas exigem reconhecimento. Homens que pedem admiração sem entregar função.


O discurso moderno ensinou que força é tóxica, mas esqueceu de explicar que fragilidade também pode ser. Uma sociedade composta por homens que não sabem agir em situações simples não é mais segura, é mais frágil. Não é mais justa, é mais desamparada. Não é mais evoluída, é apenas mais confusa.


O gesto de andar do lado correto da calçada virou meme. "Coisa de velho", dizem. Curioso como o mesmo homem que sabe todas as coreografias do TikTok não sabe ler o básico do espaço urbano. Não entende que o lado externo da calçada é o lado do risco. Do carro que sobe, da bicicleta desgovernada, do imprevisto. Não é romantização. É estatística. É observação. É mundo real.


Mas o mundo real exige algo que o homem contemporâneo desaprendeu: responsabilidade sem aplauso. Ninguém vai filmar você trocando um pneu à noite. Ninguém vai te dar like por resolver um problema doméstico. Ninguém vai te chamar de desconstruído por se colocar entre o risco e quem está ao seu lado. E talvez seja exatamente por isso que tantos não fazem.


A masculinidade virou um palco. E, como todo palco, só funciona sob luz, ângulo e validação. Fora disso, desmonta.


Há também a terceirização total da vida. Se algo quebra, chama-se alguém. Se algo assusta, ignora-se. Se algo exige confronto, posterga-se. O homem não aprende porque não precisa. Não precisa porque sempre haverá um serviço, um aplicativo, um tutorial que nunca será assistido até o fim. O problema é que a vida não avisa quando não haverá tempo de chamar ninguém.


O argumento clássico surge rápido: “isso é só saudosismo”. Não é. Ninguém está defendendo o homem bruto, violento, incapaz de sentir. O que está em falta não é sensibilidade, é estrutura. Não é emoção, é função. Um homem pode ser sensível, moderno, empático — e ainda assim saber agir. Uma coisa não exclui a outra. Só na caricatura ideológica elas se anulam.


O homem forte de verdade não é o que grita sobre masculinidade. É o que não precisa discursar. Ele simplesmente faz. Resolve. Age. Sustenta. Não para dominar, mas para garantir que o caos não avance um centímetro além do necessário.


Hoje, porém, o que se vê é um medo generalizado de assumir esse lugar. Um receio constante de ser mal interpretado. Um pânico de parecer antiquado. E, nesse medo, perde-se algo essencial: o senso de dever.


Dever não é opressão. Dever é o que separa adultos de adolescentes tardios. Dever é entender que viver em sociedade implica assumir papéis, mesmo quando eles não são confortáveis ou trending topics.


O homem contemporâneo quer os bônus simbólicos da masculinidade — respeito, desejo, reconhecimento — sem pagar o preço prático dela. Quer ser visto como forte, mas não testado. Quer ser admirado, mas não necessário. Quer ser referência, mas não responsabilidade.


E isso cobra um preço coletivo. Mulheres que precisam estar sempre alertas. Crianças que crescem sem referência funcional de ação masculina. Espaços públicos mais inseguros. Relações mais frágeis. Tudo porque agir virou opcional.


No fim, talvez o maior problema não seja o homem que tem medo de barata. É o homem que tem medo de si mesmo. Medo de errar. Medo de agir. Medo de ocupar espaço. Medo de ser útil.


A evolução real não elimina virtudes — ela as lapida. Coragem, proteção, prontidão e responsabilidade não são relíquias do passado. São ferramentas do presente. E quem abre mão delas não se torna mais moderno. Torna-se apenas dispensável.


O homem contemporâneo precisa decidir se quer continuar sendo forte apenas no reflexo do espelho ou se está disposto a recuperar algo muito mais raro: a capacidade de estar à altura quando o mundo, e não a câmera, exige.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Acesse nossas Redes Sociais:

  • Facebook
  • Instagram
  • Whatsapp
bottom of page