O Peso do Empoderamento: Entre a Liberdade e a Sobrecarga
- Thiago Mourão

- 30 de out. de 2025
- 9 min de leitura
Quando se fala em empoderamento feminino hoje, a imagem que surge é potente: mulheres ocupando posições de liderança, administrando suas vidas – carreira, corpo, escolhas, voz. A cena é pulsante de conquistas, e com razão: décadas de lutas por direitos, oportunidades, visibilidade, acesso ao mercado e à educação fizeram com que o mundo se transformasse. No entanto, sob essa vitória reluzente mora uma outra realidade — menos exibida, mas tão importante quanto: a sobrecarga que acompanha essa nova liberdade. E, em paralelo, surge uma transformação silenciosa entre os homens — que não mais se veem ou não querem mais ser apenas provedores — e isso gera tensões, expectativas novas, redefinições de gênero e papéis sociais.

Neste ensaio, convido você a percorrer esse panorama: entender o que significa o empoderamento feminino, como ele se converte em cobrança e carga, e como os homens contemporâneos têm reagido — ou tentado reagir — à redução ou redefinição do papel tradicional de provedor.
1. O empoderamento feminino e sua ambivalência
O termo “empoderamento feminino” se tornou onipresente: ele simboliza a libertação de antigas amarras, a obtenção de autonomia, a disposição de que as mulheres sejam protagonistas de suas vidas. No campo profissional, político, cultural, doméstico — em todos eles. Mas este ideal, que merece ser celebrado, traz consigo uma ambivalência: quanto mais a mulher avança, mais tarefas são somadas, mais expectativas recaem, mais zonas de exaustão e invisibilidade se colocam no caminho.
Historicamente, a inserção das mulheres no mercado de trabalho representou um marco de emancipação. Porém, quase simultaneamente, persistiu (e persiste) a divisão desigual das tarefas domésticas e de cuidados. No Brasil, por exemplo, um estudo aponta que 88 % das mulheres de 16 anos ou mais que trabalham também executam tarefas domésticas — enquanto para os homens esse índice é de 46 %. Este cenário gera uma carga semanal média feminina de 56,4 horas — quase cinco horas a mais que a carga masculina. Em âmbito internacional, no conjunto dos países da OECD, as mulheres realizam em média quase o dobro de horas de trabalho não remunerado do que os homens; quando se somam trabalho pago e não pago, as mulheres trabalham cerca de 24 minutos por dia mais que os homens.
Logo, o empoderamento feminino não significa simplesmente “menos trabalho” ou “menos responsabilidades” — muitas vezes ocorre justamente o contrário: mais escolhas, sim, mas também mais tarefas, mais tensão, mais carga mental. Mulheres que assumem emprego, mantêm casa, cuidam de filhos, de idosos, organizam compromissos familiares, vivem, em muitos casos, a chamada “segunda jornada” — o tempo em que, após o trabalho remunerado, retorna-se para o lar e ao cuidado doméstico.
Um estudo espanhol apontou que, em casais de dupla renda, 55 % das mulheres ainda assumem todas as tarefas domésticas, enquanto 33 % dos homens afirmavam não fazer nada em casa. Isso evidencia a persistente desproporção entre o que se conquista fora e o que permanece dentro de casa.
E há mais: quando o conflito entre trabalho e vida familiar se torna constante, as mulheres também são quem mais registra atestado por motivos de saúde, efeito da combinação de trabalho pago + não pago. Uma revisão sistemática indicou que mulheres enfrentam mais conflito trabalho-família e esse fator está ligado a afastamentos por doença.
Portanto, o empoderamento feminino se converte num paradoxo: ser livre para escolher e, ao mesmo tempo, ser sobrecarregada por expectativas — externas e internas. Espera-se que seja bem-sucedida, equilibrada, produtiva, autônoma, atuante, cuidadora, saudável, feliz… tudo isso junto. A “supermulher” não é mais só um estereótipo — por vezes, é um fardo
2. A sobrecarga invisível: carga mental, dupla jornada e exaustão
Se há uma expressão que resume bem o que muitas mulheres vivenciam hoje, é “carga mental”. Não se trata apenas do trabalho visível, mas daquilo que permanece invisível — pensar, organizar, antecipar, lidar com imprevistos, cuidar dos outros, manter tudo em funcionamento. É o trabalho de planejamento, de lembrete, de calcular, de controlar para que o sistema familiar funcione.

No Brasil, por exemplo, dados apontam que mulheres que trabalham acumulam jornadas semanais que podem chegar a 66 horas quando somam emprego formal e tarefas domésticas. Em estudos mais recentes, pesquisadores chamam atenção para o “fardo da responsabilidade organizativa” — ou seja: não só o tempo dedicado às tarefas, mas o fato de quem carrega a preocupação de que tudo funcione está quase sempre do lado feminino.
Essa sobrecarga invisível tem implicações graves: fadiga, menos tempo para descanso, menos tempo para si mesma, menos margem para erro ou relaxamento. E o impacto não é apenas individual — há consequências para a saúde, para o desempenho profissional, para as relações interpessoais. Um estudo com trabalhadores suecos mostrou que mais horas de trabalho não remunerado estavam associadas a trajetórias mais acentuadas de sintomas depressivos entre mulheres.
E ainda: não raro, o discurso dominante exige que mulheres “dêem conta”. “Você pode isso, aquilo e mais aquilo” — sem que se lhes ofereça verdadeiramente condições de equilíbrio. O empoderamento, então, torna-se também uma nova exigência social: “ser dona da sua vida” significa “não precisar de ninguém” — mas isso ignora que libertação também pode significar poder escolher descansar, poder delegar, poder falhar, poder ser cuidada.
3. A masculinidade em transformação: “não sou mais só provedor”
Enquanto as mulheres lidam com o peso de múltiplas responsabilidades, os homens também vivem uma transição — embora menos discutida — em torno de seus papéis tradicionais. Durante muito tempo, o ideal masculino central era o papel de provedor: aquele que traz o sustento, sustenta financeiramente a família, “resolve” economicamente. Esse papel, construído socialmente, moldou identidades masculinas amplamente.
Hoje, porém, várias transformações tornam esse modelo obsoleto ou, ao menos, questionado: mulheres participam mais da força de trabalho, casais mais frequentemente se organizam com dupla renda, expectativas de paternidade mudaram, tarefas domésticas foram (ainda que parcialmente) renegociadas. Um artigo recente sobre masculinidades destaca que, em sociedades com maior participação feminina no mercado e maior demanda de envolvimento paterno, o provedor como único papel masculino torna-se insatisfatório ou insuficiente.
Além disso, a crise de setores tradicionais de emprego masculino (manufatura, mineração) contribuiu para que muitos homens perdessem o ponto de referência de “ser o provedor” como senso de identidade. Essa mudança gera duas vertentes: por um lado, oportunidade — homens se aproximam mais da vida doméstica, dos cuidados, da paternidade ativa; por outro lado, incerteza e tensão — “se não sou mais o provedor, então quem sou?”, “qual meu valor?”, “o que devo fazer?”
A cultura masculina tradicional também influencia os homens em termos de saúde: adotar papeis restritos, não expressar vulnerabilidade, não pedir ajuda. Estudos mostram que a adesão a normas tradicionais de masculinidade está correlacionada com menor procura de ajuda psicológica, o que implica maiores riscos para o bem-estar masculino.

É importante afirmar: essa transformação não significa que todos os homens abandonaram o papel de provedor — longe disso. Mas há uma reconfiguração: o provedor exclusivo deixa de abarcar todo o sentido de masculinidade, e novas formas de participação ganham espaço. Um artigo aponta que para alguns homens, a “reversão” de papéis (quando a mulher provê mais ou assume o papel central) pode gerar sentimentos de emasculação ou confusão identitária.
Assim, a mudança masculina também pesa — ainda que de outra forma. Homens enfrentam a pressão da adaptação: equilibrar expectativas próprias, da parceira, da sociedade; negociar tarefas domésticas, cuidar de filhos, repensar prioridades; lidar com a vulnerabilidade, com o novo papel de parceiro-cuidado. Esse processo, claro, ainda se dá de modo desigual, em ritmos diversos segundo classe social, cultura, raça, país. Mas é real.
4. O cruzamento entre empoderamento feminino e redefinição masculina
Quando colocamos lado a lado a sobrecarga feminina e a redefinição masculina, vemos um cenário complexo de encontros, desencontros e possibilidades.
Por um lado, as mulheres vêm conquistando espaços e autonomia — inclusive econômica. Por outro, a estrutura de suporte — em casa, no casal, na sociedade — muitas vezes não se adaptou com igual rapidez. As expectativas são altas: que a mulher produza, realize, cuide, seja forte; que o homem seja mais presente, divida as tarefas, repense seu papel. Mas ainda não há uma “transição suave”: as normas antigas persistem, as estruturas (como jornadas de trabalho, educação, cultura doméstica) mudam lentamente.
No cotidiano, isso se traduz em casais em que a mulher trabalha fora, retoma para casa e assume grande parte dos cuidados; enquanto o homem pode participar, mas talvez não tenha sido educado ou condicionado para essa participação desde sempre, ou resiste, ou se sente deslocado. Ou ainda, o homem que participa intensamente pode se deparar com crítica social ou sentir que seu papel está em risco.

A sobrecarga feminina, portanto, não se reduz automaticamente só porque as mulheres “podem”. Por exemplo: se uma mulher avança na carreira mas ainda volta para casa e assume a maior parte das tarefas domésticas, o empoderamento se torna jornada dupla ou tripla — trabalho remunerado + trabalho doméstico + carga mental + expectativas sociais. Se o homem não participa ou participa pouco, o desequilíbrio persiste.
Simultaneamente, para muitos homens, há o desafio de acolher uma masculinidade que não seja só provisão econômica — o que implica redefinir valores, aprender a cuidar, a expressar, a cooperar, a dividir poder e tarefas. Essa mudança, embora positiva, é muitas vezes sem roteiro claro, sem apoio social, sem reflexão coletiva, e pode gerar ansiedade, culpa, resistência.
E ainda: a intersecção entre gênero, classe, raça, geração faz com que nem todas mulheres ou homens vivam a transição da mesma forma. Por exemplo, mulheres negras, indígenas ou de comunidades periféricas podem ter carga ainda maior, menores recursos de apoio, menor visibilidade. Homens com menor escolaridade ou empregos precários podem perceber que o “novo papel” fica mais distante ou mais abstrato.
5. O mito da supermulher e a urgência do equilíbrio
Cria-se um ideal cultural — ainda amplamente veiculado pelas redes sociais, marketing, mídia — da mulher que “consegue tudo”: carreira de sucesso, corpo perfeito, casa organizada, filhos felizes, vida social ativa, autocuidado em dia. Esse ideal, embora motivador para algumas, torna-se tóxico quando se converte em obrigação: “se eu não der conta, é culpa minha”.

A armadilha desse mito é dupla: primeiro, torna invisível que o empoderamento não é sinônimo de ausência de limitação, de descanso, de vulnerabilidade. Segundo, reforça que se você não está «dando conta», você está falhando — e isso gera culpa, ansiedade, sensação de insuficiência.
Para quebrar esse ciclo, é necessário olhar para o empoderamento com outra lente: não como “tudo ou nada”, mas como poder de escolha, também de pausa. Ser empoderada não significa estar sempre em efeito ou performance; significa poder delegar, poder descansar, poder dizer “não”, poder redefinir o que é bem-estar. E isso precisa do apoio de redes — família, parceiro, sociedade — para que a carga se reduza e o equilíbrio se torne possível.
O equilíbrio, aqui, não é sinônimo de “metade pra cada um” de modo automático, mas de justiça, visibilidade da carga que se acumula, negociação aberta dos papéis no casal e na família, reconhecimento social daquilo que foi invisível. Também significa que o homem — quando escolhido para isso — seja educado, estimulado e partícipe de fato: cuidar, amar, apoiar, dividir.
6. Caminhos para transformação e convívio equilibrado
Para que esse novo arranjo — de empoderamento com bem-estar, de masculinidade com participação — se consolide, algumas pistas são relevantes:
Diálogo aberto no casal: transparência sobre quem faz o quê, o que cada um espera, o que está cansando, o que precisa de apoio. Negociar e revisar papéis à medida que a vida muda (filhos, mudança de emprego, doença, etc).
Reconhecimento da carga invisível: valorizar o trabalho doméstico, emocional, de cuidado. Estimular que ele seja contabilizado, dividido, ou pelo menos reconhecido. A sociedade também precisa valorizar de outro modo — menos invisibilidade, mais equidade.
Educação para ambos os gêneros: para mulheres, permitir que questionem a necessidade de “dar conta de tudo”; para homens, ampliar o repertório além do provedor — cuidar, colaborar, expressar vulnerabilidade e responsabilidade relacional.
Políticas públicas e empresariais que apoiem família, cuidados, vida: licença-paternidade, creche, horários flexíveis, remuneração justa, reconhecimento da jornada dupla. Esses suportes ajudam a reduzir o peso sobre a mulher e criar ambiente para homens participarem.
Reconhecimento de que empoderamento inclui descanso: tanto para mulheres quanto para homens, ser livre para pausar, para errar, para ser vulnerável — é parte do empoderamento autêntico.
Modelos positivos de masculinidade e parceria: exemplos no cotidiano, nos meios de comunicação, no trabalho, de homens que participam não só como provedor, mas como parceiro, pai, cuidador — ajudam a desconstruir expectativas rígidas e a abrir espaço para outros modos de ser homem.
7. Conclusão: redefinir o poder
O verdadeiro poder, no fim das contas, não está em “dar conta de tudo” ou em “ser o herói financeiro”. Está em poder escolher — e essa escolha envolve também a liberdade de descansar, de pedir ajuda, de delegar, de redefinir. Para as mulheres, empoderamento significa não apenas conquistar espaços, mas também libertar-se da sobrecarga silenciosa. Para os homens, significa não só prover, mas participar, não só ganhar, mas cuidar — sem perder valor.
Se queremos que a liberdade de mulheres e homens caminhe junta, precisamos transitar de modelos rígidos para pactos de convivência mais equitativos — onde empoderamento não pese, e protagonismo não se transforme em fardo. Onde masculinidade e feminilidade não sejam caixas fixas de responsabilidades, mas repertórios amplos de escolhas. Onde o homem que escolhe cuidar e a mulher que escolhe pausar sejam vistos como fortaleza — e não como exceções.
O empoderamento feminino e a mudança no papel masculino não são histórias separadas — são capítulos de um mesmo enredo que estamos escrevendo juntos. E o que está em jogo é a possibilidade de viver com intensidade e leveza, com responsabilidade e descanso, com potência e humanidade.
Fontes:
https://www.nucleodoconhecimento.com.br
https://www.oecd.org
https://phys.org
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
https://www.social.org.br
https://arxiv.org
https://www.newmalestudies.com
https://relationshipliteracy.org










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