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O Peso que Fingimos Não Sentir

Existe um incômodo que habita cada pessoa, uma presença que se instala nos cantos internos da consciência e que, por mais que tentemos ignorar, insiste em respirar junto conosco. Não é exatamente dor, nem exatamente medo, mas um peso constante que nos acompanha, principalmente naqueles momentos em que a vida desacelera e o mundo finalmente fica quieto demais. É nessas pausas, nos espaços entre uma responsabilidade e outra, que algo dentro de nós murmura a pergunta que tentamos evitar: será que estou realmente dando conta de ser quem sou?



Porque ser você cansa. E ninguém admite isso em voz alta. Cansa tentar atender expectativas que você nem lembra quando começou a carregar. Cansa sentir que está sempre alguns passos atrás de uma versão idealizada de si mesmo, uma versão que parece mais organizada, mais estável, mais corajosa, mais tudo. Você tenta se aproximar dela, tenta ser esse alguém mais completo, mais iluminado, mais suficiente — mas essa figura se afasta toda vez que você acredita estar perto. E o que sobra é essa sensação amarga de insuficiência, esse quase eterno, essa impressão de que a vida está acontecendo ao seu redor e você está correndo atrás do próprio fôlego.


Vivemos cercados por olhares, reais ou imaginados, e cada um deles parece exigir alguma performance. Você precisa parecer firme, parecer resolvido, parecer motivado, parecer confiante, parecer feliz. Tanto parecer que, em alguns dias, sobra pouco espaço para ser. Existe uma versão sua para cada pessoa que cruza o seu caminho, e todas elas pedem algo — aprovação, simpatia, eficiência, maturidade, leveza. Mas nenhuma delas sabe o que você sente quando fecha a porta e finalmente pode desabar por alguns minutos em silêncio. Ninguém vê a batalha secreta que você trava com pensamentos que nunca foram ditos, com memórias que insistem em voltar, com medos que você aprendeu a esconder até de si mesmo.


A verdade é que você carrega uma vida inteira dentro da cabeça, uma vida que ninguém conhece completamente. E essa solidão interna não é falha, é condição humana. Por mais que você ame, por mais que você se conecte, por mais que existam pessoas ao seu lado, existe um território emocional que é só seu. E é nesse território que crescem as dúvidas que não cabem em conversa nenhuma, as inseguranças que você não sabe nomear, as dores que você aprende a administrar como quem cuida de um ferimento que nunca cicatriza por completo.


No meio disso tudo, cresce também o medo da substituição. O mundo acelera, muda, troca, descarta. E você, sem admitir, sente que precisa ser constantemente interessante, útil, necessário, relevante para não desaparecer no fundo da multidão. Essa sensação de ser alguém que pode ser facilmente trocado por outro — no trabalho, nos relacionamentos, até mesmo nas amizades — cria uma ansiedade silenciosa que corrói a identidade. É como viver tentando provar que merece ficar, sabendo que nada garante permanência. E isso pesa de um jeito que ninguém ensina você a lidar.


O tempo, esse inimigo invisível, também contribui para o incômodo. Ele não avisa antes de levar coisas embora. Pessoas se vão, fases acabam, versões suas se desgastam, oportunidades expiram, páginas viram sem que você esteja preparado. Um dia você percebe que algo mudou profundamente e você não sabe quando. O tempo te empurra sem perguntar. E essa perda de controle dói porque você cresceu acreditando que deveria ser capaz de administrar a própria vida com precisão, como quem ajusta engrenagens. Mas a vida não funciona assim, e essa impotência te rasga aos poucos.


Ainda assim, entre todos esses pesos, existe uma verdade que ninguém te disse com clareza suficiente: você não está falhando. Você está sentindo. E sentir, por mais desorganizado que seja, é a maior prova de existência. A sensação de insuficiência não significa que você não é bom o bastante. Significa que você é consciente, sensível, desperto demais para viver anestesiado. Significa que você percebe nuances que outras pessoas escondem. Significa que você está vivo — e estar vivo dói mesmo.


A sociedade te fez acreditar que precisa ser extraordinário para justificar sua presença no mundo, que precisa ter um propósito grandioso, um legado brilhante, uma história inspiradora. Mas isso é uma mentira pesada demais para carregar. A vida não exige brilho constante. A vida exige verdade. E a verdade é que você não precisa impressionar ninguém para merecer existir. Você não precisa ser excepcional. Você precisa ser honesto consigo — e isso já é raro o suficiente para ser extraordinário à sua maneira.


As coisas que você mais tenta esconder são exatamente as que te conectam aos outros. Suas falhas te aproximam de quem também falha. Suas dúvidas criam pontes com quem também tenta entender o próprio caminho. Suas vulnerabilidades, aquelas que você aprendeu a varrer para debaixo do tapete emocional, são as partes de você que mais revelam humanidade. E humanidade é o que falta num mundo que aprendeu a performar mais do que sentir.


No fim, esse incômodo que te acompanha não é um inimigo. É um chamado. É o lembrete de que há algo em você pedindo respeito. De que não dá para continuar empurrando a vida enquanto tenta caber em moldes que nunca foram feitos para você. Esse incômodo é o sinal de que você precisa se ouvir mais, respirar mais, existir de forma menos automática. Não é fraqueza. É a prova de que você percebe o que muitos ignoram.


Você, com todas as suas falhas, dúvidas, cicatrizes e pequenos brilhos, já é suficiente. Sempre foi. Só faltava acreditar que ser suficiente não é sobre ser perfeito — é sobre ser real. E você é real demais para continuar vivendo como se precisasse se justificar o tempo todo.



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