Pequenas cidades, grandes ideias: como a criatividade está se tornando o novo motor da economia no interior.
- Thiago Mourão

- 30 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Em uma praça arborizada de uma pequena cidade do interior, a movimentação de um sábado pela manhã chama atenção. Enquanto artesãos montam suas barracas coloridas, produtores locais organizam potes de mel, queijos e compotas. Do outro lado, um grupo de jovens ensaia uma apresentação musical que, logo mais, animará o público que circula pela tradicional Feira da Praça.
A cena parece simples — e é. Mas o impacto dessa simplicidade é profundo. A feira, criada há poucos anos por iniciativa de um grupo de comerciantes e empreendedores locais, se tornou uma das principais fontes de renda de dezenas de famílias, movimentando o turismo e o comércio. Sem grandes investimentos, apenas com organização, colaboração e criatividade, o evento passou a atrair visitantes de cidades vizinhas, despertando um novo olhar sobre o potencial econômico das pequenas comunidades.
Essa história, comum a diversas cidades do interior, é um exemplo vivo do que se chama hoje de Economia Criativa — um conceito que vai além das artes e da cultura, abrangendo toda forma de geração de renda que nasce da criatividade, do conhecimento e da identidade local.
A força da criatividade no interior
A Economia Criativa é um dos setores que mais cresce no mundo. De acordo com dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), ela movimenta trilhões de dólares anualmente e tem uma característica marcante: valoriza o que é único.

Isso significa que não é preciso ter grandes indústrias ou recursos tecnológicos avançados para prosperar. Uma pequena cidade pode se tornar referência por aquilo que tem de mais genuíno: suas tradições, talentos e histórias.
No interior brasileiro, onde as relações humanas são mais próximas e o ritmo da vida é mais colaborativo, o cenário é fértil para esse tipo de desenvolvimento. Quando uma cidade investe em feiras culturais, rotas gastronômicas, eventos de arte, turismo rural, produção artesanal ou experiências locais, ela cria um círculo virtuoso que beneficia toda a economia.
O visitante que vem para conhecer um evento cultural, por exemplo, se hospeda em pousadas locais, come em restaurantes da cidade, compra lembranças no comércio e recomenda a experiência a outros. Cada real gasto se multiplica e permanece circulando dentro do município.
"Ações simples, resultados grandiosos"
Em muitos municípios com menos de 20 mil habitantes, os resultados da criatividade coletiva já são visíveis. A seguir, alguns exemplos de ações simples que têm gerado impacto real:
1. Feiras e mercados locais
Feiras de artesanato e produtos caseiros têm se tornado grandes vitrines do talento local. Além de gerar renda direta, elas ajudam a fortalecer a identidade cultural da cidade. Quando organizadas com frequência, tornam-se ponto de encontro de moradores e turistas, incentivando o consumo local e criando oportunidades para novos negócios.

2. Roteiros turísticos temáticos
Cidades pequenas podem transformar suas peculiaridades em atrativos turísticos. Há municípios que criaram rotas do café, circuitos de turismo rural, festas gastronômicas e festivais culturais que movimentam o calendário local. Essas ações, embora simples, criam uma marca para a cidade e atraem visitantes durante todo o ano.
3. Revitalização de espaços públicos
Praças, antigos galpões ou prédios históricos muitas vezes esquecidos podem se tornar centros culturais, cafés colaborativos ou espaços para exposições. O investimento é relativamente baixo, mas o retorno é grande: gera vida urbana, estimula o comércio do entorno e desperta o orgulho da comunidade.
4. Incentivo à produção artesanal
Artesãos, costureiras, produtores de alimentos e artistas locais são peças-chave da economia criativa. Criar uma associação ou cooperativa para apoiar esse grupo ajuda a fortalecer o trabalho coletivo, facilita o acesso a editais e dá mais visibilidade aos produtos da cidade.
5. Parcerias entre poder público e comércio
Quando prefeitura e comerciantes locais caminham juntos, o resultado é mais rápido. Ações simples como eventos sazonais, decoração de Natal, feiras de inverno ou festivais gastronômicos movimentam a economia e criam uma agenda positiva para o município.
O comércio como protagonista
Nas pequenas cidades, o comércio é o coração pulsante da economia. É o setor que emprega, patrocina eventos, apoia causas sociais e mantém a vida em movimento. No entanto, o comerciante do interior enfrenta desafios: concorrência com grandes redes, aumento do comércio online e a sazonalidade das vendas.
A economia criativa surge como uma ferramenta estratégica para fortalecer esse setor. Quando o comércio se conecta com a cultura e o turismo, ele deixa de vender apenas produtos — e passa a oferecer experiências.
Um exemplo prático é o de lojistas que se unem para criar ações temáticas: uma semana de promoções com apresentações musicais na rua, vitrines decoradas em torno de um tema local, ou mesmo a distribuição de produtos artesanais feitos por empreendedores da cidade. Essas pequenas iniciativas aumentam o fluxo de pessoas, criam uma imagem positiva da marca e estimulam o sentimento de pertencimento na comunidade.
Além disso, comprar do comércio local é uma forma de manter o dinheiro circulando na cidade. Cada venda feita em uma loja de bairro contribui para o pagamento de salários, impostos e serviços, criando um ciclo de crescimento que beneficia a todos.
Turismo e identidade: o novo ouro do interior
O turismo de massa, concentrado em grandes centros, está dando lugar a um novo perfil de visitante: o turista de experiência. Ele não quer apenas ver paisagens — quer sentir, participar e viver o local. E é aí que o interior ganha força.

Cidades pequenas oferecem o que as grandes perderam: autenticidade, hospitalidade e simplicidade. Um passeio por uma rota rural, um café feito no fogão a lenha, uma apresentação de viola caipira na praça... Tudo isso tem valor econômico quando é bem organizado e divulgado.
O turismo, quando bem planejado, estimula diversos setores: hospedagem, alimentação, transporte, artesanato e comércio. E mais do que isso, ele fortalece a autoestima da comunidade, que passa a enxergar o que tem de valioso.
Alguns municípios têm criado Observatórios Locais de Turismo, grupos formados por comerciantes, artistas e representantes da prefeitura, para mapear oportunidades e integrar o setor. Com ações coordenadas, mesmo uma cidade de 10 mil habitantes pode se tornar referência em hospitalidade e cultura.
Educação e inovação: sementes do futuro
Nenhuma economia criativa prospera sem formação e incentivo à inovação. Por isso, iniciativas educacionais voltadas ao empreendedorismo, ao marketing digital e à gestão cultural são fundamentais.
Algumas cidades pequenas têm firmado parcerias com instituições de ensino técnico, Sebrae e associações comerciais, oferecendo oficinas e cursos rápidos. Esses programas ajudam a desenvolver habilidades que permitem aos empreendedores locais se adaptarem às novas tendências, explorarem o potencial das redes sociais e criarem produtos mais competitivos.

A juventude também tem papel essencial nesse processo. Jovens que antes sonhavam em deixar o interior em busca de oportunidades agora encontram espaço para empreender onde vivem — criando cafeterias temáticas, estúdios de design, lojas online e marcas autorais que carregam a identidade local.
O papel do poder público
Embora a criatividade floresça espontaneamente, o poder público tem papel decisivo para sustentar esse movimento. Pequenas ações administrativas podem fazer uma enorme diferença:
Simplificação de licenças e alvarás para empreendedores criativos;
Incentivos fiscais para eventos culturais e negócios locais;
Promoção conjunta com o setor privado para divulgar a cidade em feiras e redes sociais;
Criação de editais de microprojetos culturais, voltados a artistas e pequenos produtores;
Investimento em infraestrutura turística, como sinalização, limpeza e acessibilidade;
Quando a gestão municipal entende que a cultura e a criatividade também são negócios, o desenvolvimento se torna mais sustentável e duradouro.
Casos que inspiram
Diversas pequenas cidades do Brasil têm colhido frutos desse movimento. Um município de apenas 12 mil habitantes no interior de Minas Gerais criou o Festival da Quitanda, que começou com barracas de doces e salgados típicos e hoje movimenta toda a rede hoteleira da região.
Outra cidade no sul do país, com pouco mais de 15 mil moradores, transformou uma antiga estação ferroviária em polo cultural, atraindo turistas e eventos regionais. Já uma comunidade no interior de São Paulo lançou o Circuito das Cores, reunindo artistas plásticos e artesãos para pintar murais e revitalizar fachadas comerciais, tornando-se atração turística espontânea.
Em comum, todas essas histórias mostram que não é o tamanho da cidade que define o sucesso, mas sim o engajamento de quem nela acredita.
Economia Criativa é sobre pessoas
Mais do que uma tendência econômica, a Economia Criativa é sobre gente que faz. É sobre o padeiro que cria um pão com receita da avó, a artesã que transforma retalhos em arte, o músico que anima a feira de domingo, o fotógrafo que retrata a beleza simples da cidade.
É um movimento que une tradição e inovação, mostrando que o desenvolvimento não precisa vir de fora — ele pode nascer dentro da própria comunidade.

Em tempos de globalização e tecnologia, a autenticidade se tornou um bem valioso. E as cidades pequenas têm exatamente isso: histórias verdadeiras, pessoas reais e laços fortes. Quando esses elementos se unem à criatividade, surge uma força capaz de transformar não só a economia, mas a forma como as pessoas enxergam o lugar onde vivem.
Conclusão: o futuro é criativo e local
A economia criativa mostra que não é preciso ser grande para crescer. Cidades com menos de 20 mil habitantes podem, sim, ser protagonistas do desenvolvimento regional — basta valorizar o que têm de mais especial: sua cultura, seu comércio e sua gente.
O futuro do interior brasileiro passa pela união entre empreendedores, artistas, comerciantes e poder público, com foco em inovação, identidade e cooperação.
Quando cada um faz sua parte — seja organizando um evento, comprando no comércio local ou divulgando a cidade nas redes —, o resultado aparece nas ruas, nas praças e nos rostos das pessoas.
Afinal, a criatividade é o combustível mais sustentável que uma cidade pode ter. E é nas pequenas comunidades que ela encontra o solo mais fértil para florescer.




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