Por que as pessoas estão abandonando o Facebook???
- Thiago Mourão

- 30 de out. de 2025
- 8 min de leitura

Desde a sua explosão global, o Facebook transformou não apenas a forma como nos conectamos, mas também como consumimos notícias, como criamos espaços de convivência virtual e como empresas alcançam públicos. No entanto, atualmente, há um movimento crescente de afastamento: muitos usuários estão reduzindo sua participação, desativando contas ou migrando para outras redes sociais. Por que isso está acontecendo? As razões são múltiplas — e, juntas, ajudam a entender por que o Facebook enfrenta um desgaste que pode afetar seu futuro.
1. Cansaço da interface, do conteúdo e da proposta original
Quando o Facebook surgiu e se expandiu, parte de seu atrativo era justamente reunir amigos, compartilhar momentos e acompanhar com naturalidade a vida dos outros. Com o passar dos anos, a plataforma foi acumulando camadas: algoritmos cada vez mais agressivos, excessiva exibição de publicidade, posts patrocinados, conteúdo irrelevante no feed e uma diluição do que originalmente significava “ser social”.
Usuários relatam que o feed está cheio de posts de páginas que não seguem, de publicidade implícita, de conteúdos sensacionalistas ou de “dramas” que nada têm a ver com seus interesses pessoais. Uma razão apontada por estudo da Pew Research Center em 2013 mostrou que entre os usuários que “fizeram férias” do Facebook, 21% disseram que foi “por estar muito ocupado”, 10% por “falta de interesse no site”, outros 10% por “ausência de conteúdo mais envolvente”, e 9% por “fofocas ou drama de amigos”.
Um site especializado em tecnologia descreve que “as interações deixaram de ser significativas” — ou seja: há muito mais posts de perfil, mas menos engajamento real, menos conversas profundas, menos encontros virtuais com sentido.
Esse desgaste de valor percebido — “o que eu faço aqui?” — afeta principalmente públicos mais jovens, que não veem no Facebook mais o espaço “cool” ou espontâneo que outras redes oferecem.
2. A juventude migrou — ou está migrando

Um dos sinais mais claros do declínio do Facebook está na mudança demográfica da rede. A parcela de usuários jovens, que era fundamental para a imagem de rede social vibrante, diminuiu significativamente. Por exemplo, levantamento da plataforma mostra que entre pessoas de 18 a 24 anos, 39% disseram que o Facebook “não serve mais a um propósito em suas vidas” e 19% dessa faixa etária apontaram a privacidade como motivo para deixarem a rede.
Outro dado mostra que o Facebook pode estar se tornando o que alguns chamam de “rede dos mais velhos” – ou seja, com maior adesão de públicos maduros ou mais estabelecidos — enquanto os mais jovens preferem alternativas.
O que isso significa? Primeiro: a rede perde energia, relevância cultural e a “onda” que atraiu tantos usuários no início. Segundo: em marketing, perder a juventude significa perder uma alavanca de crescimento — afinal, se os jovens não entram, a rede depende cada vez mais de manter usuários antigos do que atrair novos.
3. Preocupações com privacidade e uso de dados
Um dos motivos mais citados — e que se manteve forte ao longo dos anos — é a questão da privacidade, da coleta de dados e das implicações disso para os usuários.
Segundo dados da Statista, em 2020, 46% dos entrevistados informaram que a preocupação com privacidade era o principal motivo para deixarem o Facebook. Outros 36% disseram que não se interessavam pelo conteúdo, 27% alegaram não gostar da forma de fazer negócios da empresa e 26% preferiram outras redes.
Pesquisas acadêmicas apontam que, ao exporem seus dados, muitos usuários se sentem “surpresos, chocados, preocupados” com a quantidade de informação que as plataformas acumulam. Um estudo de 2022 com 100 participantes mostrou que, ao verem um painel de transparência de dados da plataforma, os participantes ficavam mais desconfortáveis com o fato de tanta coleta de dados e mais inclinados a minimizar ou abandonar a participação.
Também há o escândalo clássico da Cambridge Analytica (2018), que deixou marcas: mostrou aos usuários e à sociedade o quão vulneráveis são os dados, quanta manipulação pode haver e quanta monetização há por trás do “uso gratuito” de redes sociais. Esse tipo de evento impacta a confiança.
Assim, muitos usuários escolhem: ou reduzir seu uso ou sair completamente. Afinal, se sinto que estou sendo monitorado, que meus dados são usados para vender ou manipular, ou que meu feed é mais uma vitrine do que um espaço de convivência — por que continuar?
4. Sobrecarga de conteúdo irrelevante, anúncios e algoritmos opacos
Conectado ao ponto da interface e da proposta original está o fenômeno da sobrecarga de conteúdo. Ao longo dos anos, o Facebook passou a priorizar — em seu algoritmo — posts que geram engajamento (likes, comentários, compartilhamentos), independentemente de quão relevantes fossem para cada usuário. Isso criou um ciclo de feed menos pessoal e mais genérico, com tendência ao sensacionalismo, à polarização, à viralização a qualquer custo.
Alguns usuários relatam que o trânsito no feed agora se parece mais com “rolagem automática” de posts gigantescos, spam, páginas que você não segue, publicidade exagerada, e menos “meus amigos, minha família, minhas conexões”. Isso gera frustração e, eventualmente, desistência.
Além disso, muitos comentam que o uso da rede consome tempo — horas, minutos que poderiam ser investidos em interações reais, lazer ou atividades offline. Um estudo da Cornell em 2013 constatou que 11% dos usuários entrevistados haviam excluído a conta e 33% haviam desativado temporariamente, sendo que mais de 90% dos que saíram disseram estar “felizes com a decisão” de terem saído.
Em resumo: sentido de uso fraco + tempo perdido + promessa de interação real não cumprida = afastamento.
5. Bem-estar, saúde mental e “detox digital”

Nos últimos anos, mais pessoas passaram a questionar o impacto que o uso das redes sociais exerce em seu bem-estar psicológico. O uso excessivo, a exposição constante a comparações (como fotos de férias, vida perfeita, “feed highlight”), a interação com conteúdo negativo, e a sensação de não descansar ou escapar da plataforma se tornaram fatores de desgaste.
Algumas pesquisas indicam que pessoas que sentem que o uso da rede lhes causa impactos negativos — como sono prejudicado, ansiedade, depressão, sensação de falta de controle — são mais propensas a reduzir ou abandonar o uso.
Cresce, portanto, a prática do “detox digital”: sair por algumas semanas, desativar a conta ou simplesmente não abrir o app tantas vezes. Com muitos, esse passo intermediário vira definitivo: descobrem que conseguem manter contato com quem importa por outros meios e preferem redes que deem menos peso à “vida pública” e mais à privacidade e ao conteúdo que interessa.
6. As alternativas mais atraentes
Enquanto o Facebook enfrenta seu desgaste, outras redes sociais cresceram e se tornaram mais atraentes, especialmente para públicos mais jovens ou usuários que buscam algo diferente.
Redes que privilegiam vídeo curto (como TikTok), que têm interface mais leve, que permitem interações mais imediatas e mais visuais, ou que são vistas como “menos monitoradas pelos pais” ou “menos autoridades” ganharam espaço. Além disso, aplicativos de comunidades mais nichadas, conversas privadas ou até mesmo redes fora da esfera “mainstream” estão prosperando.
Segundo estudos, mais de 50% dos usuários de 18-24 anos preferem TikTok, Instagram ou Snapchat em vez do Facebook.
Essa migração reforça um efeito rede: meus amigos estão lá → eu vou lá; ou meus amigos não estão mais aqui → por que eu fico? Assim, a dinâmica de saída se auto-reforça.
7. A percepção de que “já deu” – o Facebook virou para os pais
Outra razão menos técnica, mas bastante forte, é cultural: para muitos jovens, o Facebook hoje simboliza “rede dos pais” ou “rede dos adultos”. Já não é sinônimo de modernidade ou novidade. Isso gera um efeito psicológico: se os amigos migraram, se a rede se tornou ambiente de anúncios, de posts de empresa, de conteúdos “menos relevantes”, então a experiência se torna desinteressante.

Como observou um blog especializado: “o Facebook não está morrendo, mas está tropeçando”. E explica: “os mais jovens estão saindo rapidamente… O Facebook sente-se velho e sobrecarregado, enquanto outras redes são ágeis.
Quando uma rede deixa de estar no centro da cultura jovem, perde não apenas usuários, mas relevância simbólica — o que, para negócios e crescimento futuro, é um alerta.
8. Confiança, desinformação e polarização
O ambiente informacional no Facebook sofreu críticas intensas: fake news, polarização, bolhas de opinião, manipulação eleitoral, discursos de ódio, e moderação muitas vezes considerada lenta ou ineficiente. Essas questões corroem a percepção de confiança da rede.
Pesquisas sobre “câmaras de eco” mostram que usuários mais ativos tendem a se agrupar em comunidades onde as opiniões se repetem e se intensificam — o que gera desgaste.
Quando as pessoas passam a ver o espaço como menos seguro, menos privado, ou menos divertido — ou ainda, como alvo de exploração comercial ou política — o incentivo para sair aumenta.
Além disso, a própria empresa controladora do Facebook, Meta Platforms, tem sido alvo de críticas por como lida com esses desafios — o que reforça a sensação de “rede com problemas estruturais”.
9. Valor para empresas versus valor para usuários
Com o tempo, o modelo de negócios do Facebook tornou-se cada vez mais orientado à monetização: publicidade direcionada, impulsionamento de posts, integração com comércio, negócios etc. Para muitos usuários, a sensação é de que o que resta é “a rede dos anúncios” e não mais “a rede dos amigos”.
Há até discussões acadêmicas sobre “uso problemático” das redes: quando o usuário sente que perde controle, passa a ser controlado pela manipulação algorítmica ou pelas notificações constantes, o efeito se torna exatamente o inverso do desejado — em vez de autonomia, há sensação de ser “consumidor” da rede.
Esse desalinhamento entre valor para o usuário (conexões, interações) e valor para o negócio (retenção, engajamento, monetização) gera desgaste — e eventualmente abandono.
10. E agora? O que isso significa para o Facebook e para os usuários
Para o Facebook, o afastamento de usuários significa vários desafios: desaceleração do crescimento, envelhecimento da base de usuários, menor atratividade para anunciantes de nicho ou jovens, e necessidade de reinvenção. Algumas análises apontam que a empresa deverá redirecionar esforços para manter relevância — mas redes com vantagem competitiva (vídeo curto, comunidade, privacidade) já ganharam terreno.
Para o usuário, o afastamento — ou a redução de uso — pode significar redescobrir outras formas de socialização, de consumir conteúdo ou de interagir online. Escolher onde gastar seu tempo digital torna-se tão importante quanto onde gastar seu dinheiro no mundo físico.
As pessoas que saem do Facebook frequentemente relatam que sentem mais leveza, menos comparação social, menos estímulos indesejados e maior controle sobre seus dados e sua atenção.
11. Algumas considerações finais
Em última instância, o fenômeno de saída do Facebook não se resume à queda de número de usuários — ele está ligado a uma evolução do que as pessoas esperam de redes sociais, de plataformas digitais, de suas vidas online.
As motivações se entrelaçam: a busca por privacidade, o desejo de interações mais autênticas, a rejeição ao consumo sem critério, o esgotamento do feed, a migração para outras redes, o envelhecimento da base de usuários, a saturação do modelo de monetização — tudo isso faz parte de um cenário mais amplo.
Se o Facebook continuará relevante nos próximos anos dependerá da sua capacidade de se reinventar, de recuperar confiança, de oferecer valor real aos usuários, não apenas aos anunciantes. Mas para muitos usuários, a decisão já está tomada: a rede cumpriu o papel, serviu ao propósito — agora é hora de buscar outro caminho.
Para o leitor da revista, a reflexão final se impõe: qual é o papel de cada rede social na sua vida? Quanto tempo você dedica, qual retorno tem, quais impactos isso gera? O que você ganha e o que perde ao permanecer conectado — ou desconectado — de uma plataforma como o Facebook?
Fonte: Pew Research, Reddit, TechPP, Arxiv, ”. Starleaf Blog, Topnews.in, news.cornell.edu, Statista, SoftHandTech, TechPP




Comentários