top of page

Projeto de Alto Risco: Família


Família, que antes era o destino óbvio, hoje virou uma aposta arriscada — dessas que pouca gente tem coragem de fazer porque o tabuleiro mudou, as regras mudaram, e o prêmio já não parece tão claro. O que antes era caminho natural, quase automático, agora é fruto de uma equação complexa que mistura economia sufocante, expectativas irrealistas e uma sensação permanente de fragilidade que ninguém admite em voz alta. Ter filhos deixou de ser a consequência da vida. Virou um projeto — caro, exaustivo, emocionalmente dispendioso. E como todo projeto grande, as pessoas começaram a perguntar: vale o risco?


O paradoxo é cruel. Vivemos em um mundo com mais informação, mais liberdade, mais acesso do que qualquer geração antes de nós. Mas essa abundância esconde uma escassez mais perversa: uma escassez de condições reais para construir uma família. As cidades se tornaram fortalezas hostis, lotadas, violentas, rápidas demais para quem precisa de tempo, de cuidado, de presença. A casa enxugou. O salário não acompanha. O custo de viver, apenas viver, se acumulou como concreto duro nas costas. O simples ato de existir já vem acompanhado de juros; criar alguém, então, parece uma dívida eterna.


E aqui está a ironia que ninguém gosta de encarar: não é que as pessoas não querem mais filhos; elas só não querem se destruir para tê-los. A romantização da família se esfarelou na pressão do cotidiano. O discurso bonito sobre “bênçãos” não resiste ao boleto, ao aluguel, ao transporte público lotado, às creches inacessíveis, aos salários que nunca sobem, à ausência de políticas públicas reais. Criar uma criança virou a prova de fogo para quem já vive em modo de sobrevivência. E quando a sobrevivência ocupa cada esquina, sobra pouco espaço para a construção.


Mas o problema é ainda mais profundo: as relações humanas perderam estabilidade. Amores líquidos, encontros rápidos, vínculos que se desmancham ao menor atrito. Estamos mais conectados do que nunca e, paradoxalmente, mais distantes. O que antes era sustentado por comunidade e família extensa hoje se apoia em dois indivíduos exaustos tentando segurar o mundo com as próprias mãos. E enquanto o ideal moderno de “autonomia” avança, o suporte emocional e prático diminui. Como sustentar uma família num cenário em que o individualismo ganhou mais protagonismo do que o coletivo? Como criar alguém se mal conseguimos manter a nós mesmos inteiros?


Há uma cobrança silenciosa — e cruel — que pesa especialmente sobre quem pensa em ter filhos: seja perfeito, seja estável, seja emocionalmente equilibrado, seja financeiramente sólido, tenha carreira, tenha maturidade, tenha tempo, tenha saúde mental, tenha tudo… e depois, se sobrar, tenha um filho. É como se o mundo dissesse que apenas os impecáveis são dignos de criar alguém. A maternidade e a paternidade deixaram de ser jornadas humanas para se tornarem projetos empresariais, avaliados por métricas de produtividade e desempenho. E convenhamos: quem consegue isso? Quem aguenta isso?


No fundo, estamos diante de uma verdade incômoda: a sociedade deixou de oferecer as condições mínimas para que a ideia de família seja natural. Quem escolhe não ter filhos não está renunciando à vida; está renunciando ao sofrimento gratuito. Está olhando para o mundo com uma lucidez que muitas vezes incomoda quem prefere repetir discursos prontos. Porque dizer “não quero filhos” hoje é, na prática, dizer “não aceito sacrificar minha vida inteira em troca de zero suporte”.


E talvez essa seja a grande provocação: será que realmente estamos vivendo em uma sociedade evoluída, moderna, avançada? Ou estamos apenas maquiando um colapso estrutural com frases motivacionais? Onde estão as cidades que acolhem? Onde está o Estado que sustenta? Onde estão as relações que duram? Onde está o tempo, o silêncio, o descanso que uma família precisa para florescer?


Família virou risco. Antes era destino. E nesse abismo entre o que éramos e o que nos tornamos, cresce o silêncio populacional. Um silêncio que não é falta de amor, mas falta de condições. Não é ausência de desejo; é excesso de realidade. Não é desinteresse; é autopreservação.


E a pergunta que ninguém quer fazer — mas que precisamos encarar — é simples e brutal:


O problema está nas pessoas que não querem filhos… ou no mundo que deixou de ser um lugar habitável para tê-los?

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Acesse nossas Redes Sociais:

  • Facebook
  • Instagram
  • Whatsapp
bottom of page