Quando o relógio muda, a cidade sente
- Thiago Mourão

- 20 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Há decisões que nascem com aparência de progresso, embaladas por discursos modernos, gráficos coloridos e palavras de ordem que soam bem em auditórios e redes sociais. A mudança de escala de jornada é uma delas. À primeira vista, parece simples: reorganizar horários, reduzir turnos, redistribuir o tempo. Mas toda decisão que mexe com o relógio mexe, antes de tudo, com a vida real — e a vida real acontece na rua, no balcão, no caixa aberto ou fechado.

A pergunta que quase nunca se faz é direta e incômoda: o que acontece com a cidade quando o relógio muda? Não com o trabalhador isolado em sua bolha teórica, mas com o ecossistema inteiro que depende do ir e vir das pessoas. Porque cidade não é tese acadêmica. Cidade é fluxo.
O comércio é o primeiro a sentir. Sempre foi. Ele funciona como um sismógrafo social: qualquer alteração de jornada, qualquer deslocamento de horário, qualquer encurtamento de turno aparece imediatamente na movimentação das lojas. Menos gente na rua não é abstração. É vitrine vazia, vendedor ocioso, caixa silencioso.
Defensores da mudança de escala costumam afirmar que, com mais tempo livre, as pessoas consumirão mais. É uma ideia bonita. Também é simplista. Consumo não nasce apenas do tempo disponível, mas da renda, da previsibilidade e da oferta. Ter tempo sem dinheiro não gera movimento. Ter dinheiro com comércio fechado também não.
O comércio físico depende de janelas muito específicas. Horário de almoço, fim de expediente, começo da noite, sábado pela manhã. São nesses intervalos que o faturamento acontece. Alterar escalas significa, muitas vezes, desmontar essas janelas sem criar outras no lugar. O resultado é um vazio que não aparece nos discursos, mas aparece no caixa no fim do mês.
Há ainda um erro recorrente no debate: tratar o comércio como um ente abstrato, quase uma entidade sem rosto. Mas o comércio tem nome, CPF, história e contas a pagar. É o pequeno lojista que abre a porta antes do sol nascer e fecha depois que a cidade já dorme. É o dono da padaria, da farmácia, da loja de roupas, do mercado de bairro. Gente que não tem margem para experimentar teorias.
Para grandes redes, a mudança de escala é um ajuste operacional. Para o pequeno comércio, é uma decisão de sobrevivência. Contratar mais funcionários para cobrir horários custa caro. Pagar horas extras consome margens já apertadas. Reduzir o horário de funcionamento significa abrir mão de faturamento. Não existe saída indolor.
Quando o comércio reduz horário, algo maior acontece: a cidade encurta. Ruas ficam vazias mais cedo, a sensação de segurança diminui, serviços paralelos perdem demanda. O efeito é em cadeia. Transporte sente. Fornecedores sentem. Prestadores de serviço sentem. O impacto não respeita fronteiras ideológicas.
Há também a ilusão de que a mudança de escala melhora automaticamente a qualidade de vida. Para alguns, sim. Para outros, não. O trabalhador do comércio, por exemplo, pode até ganhar uma folga a mais, mas corre o risco de perder renda, comissão ou até o emprego se a loja não fechar a conta. Qual qualidade de vida resiste ao medo do fechamento?
Outro ponto raramente debatido é a previsibilidade. O comércio precisa de rotina. O consumidor também. Quando escalas se tornam instáveis, quando horários mudam constantemente, cria-se um ambiente de incerteza. O cliente não sabe se a loja estará aberta. O lojista não sabe se haverá movimento. E a insegurança econômica é sempre inimiga do consumo.
Existe ainda o impacto simbólico. Comércio aberto comunica vitalidade. Comércio fechado comunica abandono. Cidades vivas são cidades com luz acesa, com gente circulando, com portas abertas. Alterar escalas sem considerar esse aspecto é mexer na alma urbana.
É curioso observar como o debate costuma ignorar o papel do comércio como gerador de arrecadação municipal. Menos faturamento significa menos impostos. Menos impostos significam menos serviços públicos. A conta fecha em algum lugar — e quase nunca é onde o discurso promete.
Não se trata de negar a necessidade de discutir jornadas, descanso, saúde mental ou equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Esses temas são legítimos e urgentes. O problema começa quando a discussão é feita de forma isolada, como se fosse possível mexer em uma engrenagem sem afetar todas as outras.
O comércio não é vilão nem herói. Ele é consequência. Ele responde ao ambiente que lhe é imposto. Quando as regras mudam sem diálogo, ele reage como pode: encurtando horários, reduzindo equipes, aumentando preços ou fechando portas.
Há quem veja nisso resistência ao progresso. Mas talvez seja apenas instinto de sobrevivência. Quem paga aluguel, imposto, folha de pagamento e fornecedor não pode se dar ao luxo de errar por ideologia.
A mudança de escala de jornada precisa ser debatida com coragem intelectual. Isso significa abandonar slogans e enfrentar números. Significa ouvir quem abre a loja todos os dias. Significa entender que cidade não funciona por decreto, mas por equilíbrio.
Quando o relógio muda, a cidade sente. Sente no silêncio das ruas, no brilho apagado das vitrines, no caixa que não fecha. Ignorar isso é insistir em um progresso que existe apenas no papel.
Talvez o verdadeiro avanço não esteja em mudar o relógio, mas em aprender a escutar o tempo real da cidade. Porque quando o comércio fecha, não fecha apenas uma porta. Fecha-se um pedaço da vida urbana — e reabrir isso custa muito mais do que ajustar um ponteiro.




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