Polycrise
- Thiago Mourão

- 20 de jan.
- 6 min de leitura
Vivemos um tempo estranho. Não estranho no sentido do inesperado, mas estranho porque tudo parece pesado demais para ser ignorado e banal demais para provocar reação. O mundo não grita — ele zune. Um ruído constante, grave, que não nos deixa dormir direito, não nos deixa planejar direito, não nos deixa respirar fundo sem a sensação de que algo está fora do lugar. Chamaram isso de polycrise, mas o nome é quase irrelevante diante da experiência. Polycrise não é um conceito acadêmico; é acordar cansado antes mesmo de começar o dia. É sentir que o amanhã existe, mas não se oferece como promessa. Apenas como continuação.

Durante décadas fomos treinados para acreditar que a história avançava em linha reta. Que as crises vinham, causavam estrago, e depois iam embora, como tempestades de verão. Hoje não. Hoje elas se acumulam. Se sobrepõem. Se misturam. Econômica, climática, política, social, informacional, emocional. Não dá mais para separar. Não dá mais para apontar um culpado único. A polycrise não tem rosto, não tem endereço fixo, não tem prazo de validade. Ela se instala como um clima. E quando o clima muda, não adianta reclamar do dia — é preciso aprender a viver sob ele.
Talvez o aspecto mais cruel desse tempo não seja o medo explícito, mas a erosão silenciosa do futuro. Não se trata de imaginar cenários apocalípticos, mas de algo mais sutil: a dificuldade de desejar. As pessoas já não sonham como antes. Não por falta de ambição, mas por excesso de incerteza. Planejar a longo prazo soa quase ingênuo. Projetar uma vida daqui a dez anos parece um exercício de ficção científica. O futuro deixou de ser um território de conquista e virou uma hipótese frágil, instável, condicionada a fatores que não controlamos. E quando o futuro encolhe, o presente pesa.
Isso muda tudo. Muda a forma como trabalhamos, como nos relacionamos, como consumimos, como nos percebemos. Trabalhar deixou de ser apenas uma busca por realização e passou a ser uma tentativa constante de não cair. Relacionamentos carregam menos idealização e mais cautela. Há menos entrega, menos promessa, menos romantização do amanhã. Não porque as pessoas se tornaram frias, mas porque aprenderam, muitas vezes à força, que criar expectativa demais dói caro. Amar, hoje, exige cálculo emocional. Confiar virou um gesto quase revolucionário.
A polycrise também alterou nossa relação com o tempo. Tudo acontece rápido demais, mas a sensação é de estagnação. Dias correm, semanas desaparecem, meses se acumulam, e ainda assim há a impressão de que estamos presos no mesmo lugar. Um eterno janeiro psicológico, onde o relógio anda, mas a vida parece suspensa. O tempo cronológico avança, mas o tempo emocional emperra. E isso gera frustração, ansiedade, irritação. Estamos sempre atrasados para algo que não sabemos exatamente o que é.
Nesse cenário, o cansaço deixa de ser consequência e vira estado permanente. Não é mais sinal de esforço extremo; é condição básica. Estamos cansados antes de tentar, cansados de tentar, cansados de explicar o cansaço. A exaustão se normalizou a tal ponto que virou identidade coletiva. Quem não está cansado parece deslocado, quase alienado. Descansar gera culpa. Parar gera medo. Silenciar gera ansiedade. A polycrise não nos deixa desligar porque ela se alimenta da atenção constante. Há sempre algo acontecendo, algo errado, algo urgente demais para ser ignorado.
A tecnologia, que prometia aliviar, acabou amplificando. Nunca tivemos tanto acesso à informação e nunca nos sentimos tão desinformados. O excesso não esclarece; confunde. A avalanche de opiniões, análises, indignações e verdades absolutas cria um campo de batalha permanente dentro da cabeça. Não há tempo para processar. Tudo exige reação imediata. Pensar virou luxo. Sentir virou risco. A mente não descansa porque está sempre sendo convocada a opinar, escolher um lado, se posicionar. O silêncio, nesse contexto, soa quase como omissão.
Mas talvez o efeito mais profundo da polycrise seja interno, invisível, difícil de medir. Ela corrói o sentido. Não o sentido grandioso da existência, mas o sentido cotidiano das coisas. Por que fazer? Para quê insistir? Onde isso vai dar? Perguntas que antes eram respondidas com alguma confiança hoje ficam em aberto. O discurso do progresso perdeu credibilidade. A promessa de recompensa futura soa vazia. Trabalhar duro não garante estabilidade. Ser correto não garante segurança. Planejar não garante resultado. E quando as relações entre causa e consequência se quebram, o indivíduo se vê perdido em um sistema que exige esforço constante sem oferecer retorno simbólico equivalente.
É nesse vazio que surgem os movimentos de retração. As pessoas diminuem o mundo para torná-lo habitável. Reduzem o campo de ação. Cuidam de pequenas coisas. Plantam, organizam, repetem rotinas, criam rituais mínimos. Não por nostalgia, mas por necessidade. É uma tentativa de recuperar algum controle em meio ao caos difuso. O trabalho manual volta a ter valor não porque seja mais produtivo, mas porque é tangível. Você vê o resultado. Você toca. Você entende o processo. Em um mundo abstrato demais, o concreto vira refúgio.
O consumo acompanha essa mudança. O desejo aspiracional perde força. Ostentar parece deslocado. O luxo barulhento soa ofensivo. Cresce o valor do que dura, do que acolhe, do que não exige explicação. Compra-se menos pelo status e mais pelo conforto emocional. Não é pobreza de imaginação; é economia de energia psíquica. A polycrise nos ensinou que tudo pode ruir rápido demais para justificar excessos. E, ao mesmo tempo, nos mostrou que pequenas estabilidades têm valor imenso.
Na cultura, esse clima se traduz em narrativas mais cruas, menos polidas. O herói impecável já não convence. A história de sucesso meteórico soa falsa. O público se reconhece mais em trajetórias quebradas, em processos longos, em tentativas falhas. A estética da imperfeição ganha espaço porque reflete a experiência real. Não queremos mais promessas de felicidade plena; queremos relatos honestos de sobrevivência cotidiana. A arte deixa de ser fuga e passa a ser espelho.
Há também um deslocamento moral importante. A polycrise expõe limites. Limites do crescimento infinito, da exploração contínua, da performance sem pausa. Ela revela que não somos máquinas e que o sistema que tenta nos tratar como tal cobra um preço alto demais. Isso não gera imediatamente uma revolução externa, mas provoca revoluções internas silenciosas. Pessoas repensam prioridades, redefinem sucesso, questionam narrativas herdadas. Nem sempre encontram respostas melhores, mas já não aceitam tão facilmente as antigas.
O problema é que esse processo não é romântico. Ele dói. Ele isola. Ele confunde. A transição entre um mundo que prometia e um mundo que apenas exige não é suave. Há luto envolvido. Luto por futuros imaginados, por versões de nós mesmos que talvez não existam mais. E o luto, quando não é reconhecido, vira irritação, cinismo, apatia. Parte da agressividade que vemos hoje nasce daí: da frustração de quem foi preparado para um jogo que mudou no meio da partida.
Ainda assim, há algo de profundamente humano emergindo desse cenário. A polycrise, ao desmontar certezas, expõe fragilidades compartilhadas. Ela lembra, mesmo que de forma dura, que ninguém está completamente no controle. Isso cria a possibilidade de empatia real, não performática. Uma empatia que não se baseia em discursos prontos, mas no reconhecimento silencioso de que todos estão tentando se equilibrar em terreno instável.
Talvez o maior aprendizado desse tempo seja a redefinição de força. Força já não é acelerar sem parar, produzir sem questionar, vencer a qualquer custo. Força é permanecer. É acordar quando tudo parece pesado. É continuar mesmo sem garantias. É escolher o cuidado em um ambiente que recompensa a indiferença. É sustentar algum tipo de ética pessoal quando as estruturas falham. Permanecer virou um ato político, mesmo quando ninguém está olhando.
A polycrise não anuncia o fim do mundo, mas o fim de uma ilusão. A ilusão de que o progresso era automático, de que o sistema cuidaria de tudo, de que bastava seguir o roteiro. O roteiro acabou. O que temos agora são fragmentos, tentativas, ajustes constantes. Não há manual. Não há mapa claro. Há apenas a travessia.
E toda travessia exige lentidão, atenção e resistência. Não a resistência heroica dos discursos inflamados, mas a resistência cotidiana, silenciosa, quase invisível. Aquela que se manifesta no trabalho bem feito mesmo quando ninguém reconhece. No cuidado com o outro mesmo quando não há retorno. Na escolha de não endurecer completamente, mesmo quando o mundo parece empurrar para isso.
Se existe algo de transformador nesse tempo é a chance de reconstruir sentido a partir do real, não da promessa. Um sentido menor, talvez, menos grandioso, mas mais honesto. Um sentido que não depende de garantias externas, mas de coerência interna. Não é pouco. É tudo o que temos.
A polycrise nos tirou o chão, mas também nos obrigou a olhar para onde pisamos. E talvez seja aí, nesse contato direto com a realidade, que algo novo esteja sendo gestado. Não um novo mundo ideal, mas um mundo possível. Mais consciente de seus limites. Mais cuidadoso com seus excessos. Mais humano, justamente porque não tem mais ilusões a sustentar.
No fim, não se trata de vencer a polycrise. Trata-se de atravessá-la sem perder completamente quem somos. E isso, hoje, já é um feito imenso.




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