Quando a luz pisca, o mundo treme
- Thiago Mourão

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
Não é preciso entender de geopolítica, economia global ou engenharia elétrica para perceber que alguma coisa mudou. Basta estar em casa quando a luz oscila. Basta tentar pagar algo no cartão e a máquina não responder. Basta abrir o celular e perceber que, sem energia, ele vira apenas um objeto caro e inútil. É nesse instante — banal, cotidiano, quase invisível — que o debate sobre o chamado Grande Reset deixa de parecer distante e passa a tocar a vida real.
A Revista NA TELA não fala de teorias para assustar, nem de promessas fáceis para tranquilizar. Aqui, a pergunta nunca é “quem está por trás?”, mas sim: o que está quebrando diante dos nossos olhos — e por quê?

O termo “Grande Reset” surgiu nos salões bem iluminados do poder global, como uma ideia elegante: reorganizar a economia mundial depois de grandes crises, tornar o capitalismo mais sustentável, mais digital, mais eficiente. Até aí, nada de extraordinário. O mundo sempre se reorganizou depois de choques. Guerras fizeram isso. Crises financeiras fizeram isso. Pandemias também.
O problema é que, fora dos discursos institucionais, o Reset ganhou outro significado. Para quem está do lado de cá — o lado da conta de luz cara, do salário que não acompanha os preços, da insegurança constante — Reset passou a significar perda de chão. Uma sensação difusa de que as regras mudaram sem aviso, e pior: sem escolha.
E é nesse contexto que os apagões entram na conversa.
Apagões não são um plano secreto. Não são um botão apertado por alguém em uma sala escura do mundo. Eles são, antes de tudo, sintomas. Sintomas de sistemas antigos tentando sustentar um modo de vida novo demais. Redes elétricas envelhecidas, cidades inchadas, eventos climáticos extremos, consumo crescente, digitalização total da existência. Tudo isso exige energia constante, estável, abundante. E o sistema, muitas vezes, não dá conta.
Quando falta luz, não falta apenas eletricidade. Falta rotina. Falta controle. Falta previsibilidade. A vida moderna é construída sobre a ideia de fluxo contínuo: energia, internet, pagamentos, informação. Um apagão interrompe esse fluxo e expõe algo que preferimos ignorar: somos totalmente dependentes de estruturas que não entendemos e não controlamos.
Para o público leigo, o ponto central é simples — e profundamente humano. O medo do Reset não nasce de gráficos ou relatórios internacionais. Ele nasce da experiência cotidiana de instabilidade. Da sensação de que tudo é provisório. De que nada é sólido. De que o futuro, antes promessa, virou ameaça.
A narrativa conspiratória cresce porque encontra um terreno fértil: a quebra de confiança. Confiança nas instituições, nos governos, nos sistemas. Quando a luz apaga, quando o serviço falha, quando a resposta não vem, o vazio é preenchido por interpretações. Algumas exageradas. Outras fantasiosas. Mas quase todas nascem da mesma raiz: a percepção de abandono.
A verdade incômoda é que não estamos vivendo um “reset” no sentido cinematográfico, com data marcada e roteiro definido. Estamos vivendo algo mais silencioso e mais profundo: um processo de esgotamento. E quando sistemas entram em esgotamento, eles não caem de uma vez. Eles falham aos poucos. Um apagão aqui. Uma crise ali. Uma quebra de confiança acolá.
O mundo está tentando se reinventar enquanto ainda funciona. E isso gera fricção. Gera falhas. Gera medo.
A transição energética, por exemplo, é necessária. O planeta cobra. Mas ela está sendo feita em cima de estruturas frágeis, com pressa política e pouca paciência social. O resultado é um cotidiano mais instável, mais caro e mais tenso. Para quem está no topo, isso é ajuste. Para quem está na base, é sacrifício.
E é aqui que a NA TELA faz questão de frisar: o verdadeiro debate não é sobre se existe ou não um Grande Reset. Ele existe — não como plano secreto, mas como realidade em curso. A pergunta que importa é: quem paga o preço dessa transição?
Porque reset, na prática, quase nunca é neutro. Alguém perde antes para que outro se adapte depois. Alguém vive a instabilidade enquanto outro a gerencia de longe.
Os apagões não anunciam o fim do mundo. Mas anunciam algo igualmente desconfortável: o modelo atual está no limite. E limites não negociados costumam gerar rupturas — sociais, políticas e emocionais.
Entender isso não exige formação técnica. Exige apenas atenção ao cotidiano. À conta que não fecha. Ao serviço que falha. À sensação persistente de que estamos sempre correndo para nos adaptar a um mundo que muda mais rápido do que conseguimos compreender.
Talvez o maior erro seja esperar que alguém explique tudo de forma clara, simples e honesta. Isso raramente acontece em períodos de transição. O que existe são fragmentos. Sinais. Sintomas.
Quando a luz pisca, o mundo não está conspirando.
Ele está avisando.
E o verdadeiro Reset, gostemos ou não, começa quando percebemos que nada voltará a ser como antes — e ainda não sabemos exatamente o que virá depois.




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