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Quando o Risco Não é o Banco, é o Silêncio


Existe uma ilusão confortável que se repete em ciclos no Brasil: a de que o sistema bancário é sólido demais para ser abalado por instituições periféricas. Como se o risco viesse apenas dos gigantes, dos grandes conglomerados, das cifras bilionárias que estampam relatórios e capas de revista. Mas a história — sempre ela — insiste em nos lembrar que os colapsos mais ruidosos quase nunca começam no centro. Eles nascem nas bordas. Discretos. Técnicos. Ignorados.



O caso do Banco Master, independentemente de desfechos ou julgamentos definitivos, acende um alerta que vai muito além de um nome próprio. Ele revela algo mais profundo e incômodo: o quanto o sistema financeiro brasileiro ainda depende menos de balanços e mais de confiança. E o quanto essa confiança é frágil quando confrontada por práticas agressivas, modelos de crescimento acelerado e uma regulação que, muitas vezes, chega atrasada ao incêndio.


Bancos não quebram apenas por insolvência. Quebram quando o mercado decide que eles podem quebrar. É um pacto invisível, quase psicológico, que sustenta o crédito, a liquidez e a circulação do dinheiro. Quando esse pacto se rompe, não há taxa de juros, garantia formal ou discurso institucional que segure a corrida. O sistema bancário é, antes de tudo, um sistema de crença.


E é aqui que mora o risco sistêmico. Não no tamanho absoluto do banco, mas no lugar que ele ocupa na engrenagem. Bancos médios e pequenos, ao buscarem protagonismo, frequentemente recorrem a estratégias de diferenciação baseadas em rentabilidade acima da média, produtos complexos, estruturas pouco transparentes ou concentração de risco. Funcionam bem enquanto o vento sopra a favor. Mas quando o mercado muda de humor — e ele muda rápido — essas mesmas estratégias viram combustível.


O problema nunca é isolado. Bancos não operam em caixas individuais. Eles emprestam entre si, compartilham investidores, disputam o mesmo funding, acessam o mesmo Fundo Garantidor de Créditos. Quando um elo da corrente apresenta fragilidade, a pergunta não é “quem vai quebrar?”, mas “quem está exposto?”. E essa pergunta paralisa. O crédito encarece. O dinheiro recua. A economia real sente antes mesmo de entender o motivo.


O FGC, frequentemente tratado como escudo absoluto, também tem limites — financeiros e simbólicos. Cada evento relevante consome recursos, pressiona o sistema saudável e alimenta a percepção de que o risco está se acumulando. O efeito colateral é perverso: bancos mais conservadores passam a pagar a conta dos mais ousados, enquanto o custo do crédito se espalha pela sociedade. O risco privado vira, lentamente, um imposto invisível.


Mas talvez o ponto mais sensível esteja na regulação. Não na sua existência, mas na sua percepção. Quando o mercado começa a desconfiar que práticas arriscadas foram toleradas por tempo demais, que alertas foram ignorados ou que o crescimento acelerado passou sem escrutínio proporcional, a dúvida deixa de ser sobre um banco específico. Ela passa a ser institucional. E quando a confiança na supervisão balança, o capital não debate — ele se move.


Crises bancárias não são apenas eventos financeiros. São narrativas. Elas moldam discursos políticos, alimentam desconfiança social e corroem a ideia de previsibilidade. Não importa quantas vezes se repita que “o sistema é sólido” se, na prática, a sensação é de improviso. O mercado lê sinais. E o silêncio, muitas vezes, é o mais barulhento deles.


O caso do Banco Master expõe uma tensão antiga: até que ponto o sistema aceita modelos agressivos em nome da competição? Até onde vai a inovação financeira e onde começa a imprudência? E, principalmente, quem segura o volante quando a curva fecha rápido demais?


A verdadeira ameaça não é um banco quebrar. Isso faz parte do capitalismo. A ameaça é fingir que não há risco até que ele se torne grande demais para ser contido sem custo social. A ameaça é tratar sinais como ruído. É confundir crescimento com solidez. É acreditar que confiança se reconstrói apenas com notas técnicas e comunicados oficiais.


No fim, o sistema bancário brasileiro continua robusto — mas robustez não é sinônimo de invulnerabilidade. Ela exige vigilância constante, transparência radical e coragem regulatória. Porque quando o risco não é nomeado, quando o debate é abafado e quando a crítica é tratada como alarmismo, o problema deixa de ser o banco.


O problema passa a ser o silêncio.

E silêncio, em finanças, quase nunca significa estabilidade. Significa espera. A espera pelo impacto

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