Presentes com Propósito: a nova forma de consumir em tempos de cautela econômica
- Thiago Mourão

- 30 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Como a economia brasileira e o novo perfil de consumo no interior estão redefinindo a forma de comprar presentes em datas comemorativas???

Nos últimos anos, o ato de comprar presentes — antes um gesto quase automático em datas festivas como Natal, Dia das Mães ou Dia dos Namorados — passou por uma transformação silenciosa, mas profunda. No interior de São Paulo, onde o comércio local é o coração pulsante da economia, essa mudança é ainda mais perceptível. A nova realidade econômica, marcada pela inflação persistente, pelos juros altos e pela incerteza no poder de compra, tem moldado um consumidor mais consciente, seletivo e atento às experiências que o ato de presentear pode proporcionar.
O brasileiro, historicamente afeito a presentear, aprendeu a equilibrar emoção e racionalidade. E o lojista, por sua vez, precisou se reinventar para acompanhar esse movimento — adotando novas estratégias de venda, presença digital e formas de relacionamento com o cliente.
O cenário econômico: entre o desejo e a cautela
Segundo dados do IBGE e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o poder de compra da classe média brasileira ainda não se recuperou totalmente das oscilações econômicas pós-pandemia. Em regiões do interior paulista — como Sorocaba, Bauru, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto —, o comércio local vem enfrentando um consumidor mais contido e exigente.
Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrou que, em 2024, 70% dos consumidores planejaram seus gastos festivos com antecedência, e quase metade priorizou produtos úteis ou de necessidade cotidiana. O impulso emocional deu lugar ao planejamento financeiro.
Além disso, há uma tendência clara: as pessoas continuam querendo presentear, mas com mais significado e menos ostentação. O foco passou a ser o “presente certo”, aquele que demonstra cuidado, utilidade e conexão emocional — e não necessariamente o mais caro.
O consumidor do interior: proximidade, confiança e propósito
O interior paulista tem um perfil de consumo particular. Nas cidades médias e pequenas, o comércio ainda é marcado pela proximidade entre vendedor e cliente. A relação de confiança, construída ao longo dos anos, continua sendo um diferencial competitivo — mas agora precisa se somar a novas demandas: preço justo, experiência personalizada e propósito.
A empresária Cláudia Ferreira, proprietária de uma loja de presentes em Lins (SP), resume bem essa mudança:
“Antes, o cliente chegava e comprava por impulso, especialmente em datas comemorativas. Hoje ele pesquisa, compara, pergunta, e quer entender se o produto tem durabilidade ou algum significado. O desafio é mostrar valor, não apenas preço.”
Pesquisas de mercado apontam que o consumidor do interior está mais conectado do que nunca. Mesmo quem prefere comprar na loja física costuma pesquisar online antes. Redes sociais como Instagram e WhatsApp Business se tornaram ferramentas essenciais para a jornada de compra, inclusive para negócios locais.
Datas comemorativas continuam fortes, mas com novos padrões
O comércio ainda depende fortemente de picos sazonais — Natal, Dia das Mães, Dia das Crianças e Dia dos Namorados. Porém, as vendas nessas épocas têm mostrado uma mudança de padrão. Em vez de uma corrida às lojas na última hora, observa-se um aumento das compras antecipadas, feitas de forma mais planejada e, muitas vezes, em menor volume, porém com ticket médio mais equilibrado.
Segundo dados da FecomercioSP, em 2024, o faturamento do varejo no interior cresceu cerca de 2,8% em relação ao ano anterior, mas o número de itens vendidos caiu — indicando que o consumidor está comprando menos, porém escolhendo melhor.
Além disso, há maior valorização do comércio local. Uma pesquisa da Sebrae-SP mostrou que 63% dos consumidores preferem comprar em lojas da própria cidade, principalmente para evitar fretes e fortalecer a economia da região. Esse movimento abre espaço para campanhas que reforcem o senso de pertencimento e a importância do “compre do pequeno”.
O presente ideal mudou: utilidade e experiência em alta
Produtos de uso pessoal, itens de autocuidado, decoração e bem-estar estão entre os preferidos. Mas o destaque vai para presentes com propósito — aqueles que representam cuidado, sustentabilidade e originalidade.
Entre as categorias que mais crescem estão:
Produtos artesanais e personalizados, que transmitem exclusividade e apoio à produção local;
Experiências (como jantares, diárias em pousadas e vouchers de serviços), que oferecem memórias em vez de objetos;
Itens sustentáveis, como cosméticos naturais, roupas de algodão orgânico e objetos reutilizáveis;
Serviços de assinatura, como cafés, vinhos e flores, que transformam o presente em uma relação contínua.

Essas escolhas mostram que o ato de presentear está se tornando mais emocional e simbólico, e menos baseado em status. O consumidor quer “acertar no gesto”, e não apenas impressionar.
O impacto da economia familiar e o crédito mais caro
Outro fator que influencia diretamente o comportamento de compra é o custo do crédito. Com juros ainda elevados e o endividamento das famílias em torno de 78% da renda mensal média, segundo o Banco Central, o parcelamento perdeu força. Muitos consumidores preferem pagar à vista — o que muda totalmente a dinâmica das promoções e do fluxo de caixa dos lojistas.
No interior, onde o relacionamento pessoal ainda vale mais que qualquer algoritmo, o famoso “fiado” foi substituído por formas alternativas de pagamento, como Pix parcelado, carteiras digitais e programas de fidelidade. Essa modernização é bem recebida, desde que o processo seja simples e seguro.
O lojista que entende o novo consumidor sai na frente
Para os lojistas do interior paulista, o desafio está em equilibrar tradição e inovação. A boa notícia é que quem souber adaptar sua comunicação e oferecer valor real pode não apenas sobreviver, mas prosperar nesse novo contexto.
Algumas estratégias têm se mostrado eficazes:
1. Experiência de compra humanizada
Mesmo em tempos digitais, o atendimento continua sendo o diferencial. Treinar a equipe para oferecer escuta ativa, empatia e atenção aos detalhes é essencial. Em cidades pequenas, onde o boca a boca ainda define reputações, a experiência de compra é mais importante do que qualquer campanha de mídia.
2. Comunicação digital de proximidade
O Instagram se tornou o “novo vitrine”. Mas o que mais converte são conteúdos reais, com histórias locais, bastidores e rostos conhecidos. Mostrar o dono da loja, o processo de escolha dos produtos e até os clientes satisfeitos cria conexão e confiança.
3. Campanhas regionais e colaborativas
Parcerias entre comércios, promoções coletivas e eventos locais — como feiras de Natal, sorteios comunitários e ações de “compre local” — fortalecem o sentimento de pertencimento e atraem o público. O consumidor gosta de saber que seu dinheiro circula na própria cidade.
4. Mix de produtos consciente
Apostar em linhas com múltiplas faixas de preço permite atender diferentes perfis de consumidores, sem perder identidade. Itens de valor emocional ou utilitário tendem a ter melhor aceitação do que produtos puramente decorativos.
5. Pós-venda e fidelização
Enviar uma mensagem após a compra, agradecer e oferecer benefícios em futuras datas comemorativas faz diferença. A fidelização custa menos do que conquistar novos clientes, e reforça o laço local.
Pequenas cidades, grandes oportunidades
Enquanto grandes centros enfrentam saturação e competição acirrada, as cidades do interior ganham espaço com o charme do atendimento personalizado. O consumidor valoriza o contato humano e o sentimento de comunidade, coisas cada vez mais raras nas metrópoles.

A digitalização do pequeno comércio — impulsionada pela pandemia — não significou perda de identidade. Pelo contrário: deu ao lojista a chance de ampliar o alcance mantendo o calor humano. Hoje, é possível vender pelo WhatsApp, divulgar nas redes sociais e ainda manter o cliente próximo.
O futuro do consumo é consciente e local
A tendência global de consumo consciente está chegando com força ao interior paulista. A geração mais jovem, que já atua como principal força de compra, valoriza empresas éticas, produtos sustentáveis e experiências autênticas.
Segundo pesquisa da NielsenIQ, 66% dos consumidores brasileiros afirmam que estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis ou de origem local. Isso abre um novo leque de oportunidades para produtores artesanais, lojas colaborativas e marcas regionais.

No interior, essa tendência se mistura à tradição: o consumidor quer o novo, sem perder o vínculo com o familiar. Quer comprar online, mas prefere retirar na loja e conversar com o dono. Quer inovação, mas valoriza o café servido com simpatia no balcão.
Desafios e reinvenção
O comércio do interior enfrenta desafios reais: custos logísticos, dependência de datas sazonais e dificuldade de acesso a crédito competitivo. No entanto, o cenário atual também estimula a criatividade e o fortalecimento de laços locais.
Iniciativas de capacitação do Sebrae-SP e das associações comerciais regionais têm ajudado pequenos empreendedores a se digitalizarem, entenderem métricas e adotarem ferramentas simples de gestão e marketing. A profissionalização, antes restrita às grandes redes, agora chega às lojas familiares.
Como afirma o consultor de varejo Marcelo Prado, diretor do Instituto IEMI:
“O futuro do varejo não será dominado pelos maiores, mas pelos mais ágeis. Quem entender seu cliente, se comunicar bem e oferecer uma experiência relevante, vai continuar crescendo, mesmo em tempos de incerteza.”
Conclusão: o novo presente é o que faz sentido
Em tempos de economia desafiadora, o ato de presentear ganhou um novo significado. Mais do que um gesto de consumo, é uma forma de expressar afeto, cuidado e propósito. O consumidor do interior de São Paulo mostra que é possível ser racional sem perder o calor humano — e o comércio local, por sua vez, descobre que vender é também criar vínculos.
O futuro pertence a quem entende que comprar e vender não são apenas transações, mas relações. E que, em meio a tantas mudanças, o presente mais valioso continua sendo o sentido de comunidade.
Fontes Consultadas:
IBGE – Indicadores Econômicos 2024
FGV – Índice de Confiança do Consumidor (ICC), 2024
CNC – Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), 2024
FecomercioSP – Panorama do Varejo no Interior Paulista, 2024
Sebrae-SP – Comportamento do Consumidor no Comércio Local, 2024
NielsenIQ – Estudo Global de Sustentabilidade no Consumo, 2024
Entrevistas e dados regionais compilados de Associações Comerciais do Interior Paulista




Comentários