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SEGURANÇA: A FERIDA QUE O BRASIL AINDA TEM MEDO DE TOCAR


A segurança pública no Brasil deixou de ser um debate e virou um sintoma. Não é mais uma pauta, é uma doença crônica que se espalha pelo corpo inteiro da nação, corroendo a confiança, a rotina, a liberdade e até o silêncio. Vivemos com medo, mas nos comportamos como se esse medo fosse parte natural da vida, quase um companheiro inevitável, como o trânsito, o calor ou a política. E talvez esse seja o problema mais profundo: o Brasil se acostumou a sofrer. Acostumou-se tanto que já nem percebe o quanto está ferido.


As leis, frágeis como papel exposto à chuva, não protegem; apenas registram a intenção de proteger. A justiça, lenta ao ponto de insulto, não acalma, não ordena, não intimida. Ela chega tarde demais, quando chega, e quando chega o impacto já se dissolveu. Não existe justiça retardada — existe fracasso institucional. Quando o juiz finalmente bate o martelo, o criminoso já bateu metas, já expandiu negócio, já recrutou mais três. A justiça brasileira parece sempre exausta, sempre lenta, sempre justificando-se como se a espera fosse parte do processo, como se anos de morosidade fossem aceitáveis. Não são. Nunca foram.


E nesta hesitação do Estado, o crime fez morada. O criminoso moderno não é mais aquele personagem improvisado das histórias antigas. Ele é estudado, informado, conectado e, acima de tudo, atento às falhas. Ele conhece o sistema penal como um técnico conhece seu time: sabe quando atacar, quando recuar, quando fingir. Ele sabe que a prisão é apenas uma pausa, não um fim. Sabe que a investigação vai demorar, que o inquérito vai emperrar, que o processo vai se arrastar e que, se tudo der errado para ele, ainda há brechas, recursos, revisões e interpretações generosas. No Brasil, o crime tem menos medo da lei do que medo da concorrência.


Enquanto isso, o cidadão comum vive encurralado em uma falsa normalidade. Blindamos carros, muros, celulares, vidas. Transformamos casas em fortalezas, ruas em roteiros de risco, motos em ameaças ambulantes. Criamos grupos de vigilância em bairros, instalamos câmeras, reforçamos grades, colocamos alarmes. A autoproteção virou rotina, não escolha. É como se o brasileiro tivesse desistido de esperar que o Estado cumpra sua função primordial: proteger. E, ao desistir, criou sua própria versão de segurança, fragmentada, desigual, privada — um país dividido entre quem pode se proteger e quem apenas torce para não ser o alvo do dia.


Mas o mais trágico nesse cenário não é a violência. É a anestesia. O Brasil aprendeu a normalizar o absurdo. Crianças baleadas em troca de tiros? “Acontece.” Assaltos em plena luz do dia? “Sempre teve.” Reincidentes sendo soltos no dia seguinte? “O sistema é assim mesmo.” Essa frase — “é assim mesmo” — talvez seja o maior crime cultural deste país. É o mantra da rendição, o hino da desistência nacional. Quando a população aceita demais, o Estado entrega de menos. Quando o povo perde a capacidade de indignar-se, o poder perde a obrigação de agir.

E é por isso que esta ferida não cicatriza. Não é que falte solução; falta exigência. Falta intolerância com o inaceitável. Falta pressão real — aquela que dói no gabinete, que pesa na cadeira, que faz governadores, ministros e deputados perceberem que não há projeto econômico que dure num país que vive aterrorizado. Segurança não é política pública, é infraestrutura emocional de uma nação. Sem ela, nada floresce.

A violência brasileira já ultrapassou números e estatísticas; virou personalidade. Virou atmosfera. E, pior, virou limite de expectativa: as pessoas já não pensam em viver num país seguro, mas em sobreviver num país perigoso. Essa é a troca mais cruel que uma sociedade pode fazer. O medo deixou de ser exceção e virou hábito. E o hábito é sempre mais difícil de combater do que o choque.


A verdade, por mais dura que seja, é simples: o Brasil só voltará a ser seguro quando o medo mudar de lado. Hoje, quem teme é o cidadão — o trabalhador que olha para trás ao atravessar a rua, a mãe que espera o filho voltar da escola, o jovem que evita o celular no bolso, o idoso que não sai mais à noite. O criminoso, por sua vez, não teme nada: nem a polícia, nem o processo, nem a lei, nem a cadeia. O medo está na direção errada — e enquanto continuar assim, nada mudará.


Mas há uma pergunta que ninguém faz com coragem suficiente: o brasileiro realmente quer segurança? Não “quer” no sentido superficial, do tipo “seria bom ter”, mas no sentido de cobrar, pressionar, exigir, incomodar — porque segurança real nasce de desconforto. A sociedade que realmente deseja mudança não dorme tranquila, não aceita explicações fracas, não tolera discursos vazios. Ela perturba. Ela exige. Ela incomoda. Ela força o sistema a funcionar.


O Brasil não precisa de mais operações cinematográficas, de mais promessas inflamadas, de mais ministros repetindo frases prontas. Precisa de leis que não se envergam, processos que não se arrastam, prisões que não se transformam em escritórios corporativos do crime, polícias que não sejam sucateadas e tratadas como descartáveis, tecnologia que não seja luxo, inteligência que não seja exceção. Precisa de coordenação, de firmeza, de continuidade — e de coragem institucional para enfrentar não apenas o crime nas ruas, mas o crime nos gabinetes, o crime nas estruturas do poder, o crime das elites que nunca veem presídio por dentro.

Porque a violência brasileira não nasce só na pobreza; nasce também na impunidade confortável de quem acha que a lei é um inconveniente apenas para os outros. Um país só se torna seguro quando não há intocáveis. E no Brasil há muitos.


Talvez a pergunta não seja mais “quando o Brasil voltará a ser seguro?”, mas “quando vamos parar de fingir que a insegurança é normal?”. Porque um país que se acostuma ao caos se condena ao caos. E, neste momento, o Brasil parece se acostumar rápido demais.


Mas existe um ponto de virada — sempre existe. Ele começa no momento em que a população percebe que segurança não é privilégio, não é luxo, não é favor: é direito. E que direitos, quando não defendidos, apodrecem. O Brasil voltará a ser seguro quando houver mais indignação que resignação, mais cobrança que silêncio, mais coragem que conformismo. Quando deixarmos de achar natural o que é trágico. Quando deixarmos de aceitar como rotina o que deveria nos revoltar.


A segurança não voltará sozinha. Ela precisa ser arrancada. Precisa ser conquistada. Precisa ser exigida. O país está cansado de sobreviver. Está na hora — e já passou da hora — de voltarmos a viver.

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